Esbarramos

Leia ouvindo: Fernando Celani – Tempo Perdido (Cover)

Esbarramos.

Em silêncio, nossos olhares se encontraram.

Cabeças girando na direção contrária da caminhada do corpo.

Lentamente destinamos nossos olhares ao nosso choque. Na realidade. De realidade. Tocamos nossos corpos em uma noite. Mais uma vez. Meu olhar reconhecia aquele sorriso e teus olhos já avistavam o contorno dos meus lábios. Eu procurei você por várias noites, desde aquela que nos conhecemos. Encaixei teu rosto em corpos que colocava nos meus planos noturnos.

Desculpas já não eram necessárias e um abraço tomou conta de toda aquela raiva que, quase sem querer, passou por ali. O teu abraço regulou o volume do ambiente, diminuiu a temperatura do ar condicionado e eu fiz questão de perder a minha pouca noção de tempo quando nossos lábios repousaram juntos. Esse é o problema de amores em alto mar. Quando os amantes bebem demais. Falam de menos. E tentam encontrar um meio termo de toques pela dança das mãos.

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[ Imagem: reprodução ]

Ele do lado mais frio. Ela meio morna. Do seu lado, talvez pelo campo e pela proximidade da família, ele acreditava em fantasias. Do lado dela, talvez pelo barulho e pela correria, sempre foi prática. Não sabia passar vontade. Ele não sabia passar contatos. Mas nunca tinha lidado com um contato daquele. Aqueles que tocam, arrepiam. Dão risada do choque passeando pelo nosso corpo. É a risada mais bonita do mundo. Mas é uma risada tão dela, que não pode ter posse de ninguém.

Aquela madrugada, então finalmente foi deles. Até tomaram posse de uma estrela. Estavam decidindo qual nome dariam para ela no caminho até a cabine dele. Que hoje seria dela. Cobriram os dois corpos com um lençol só. Ocuparam o mínimo de espaço por se aproximarem ao máximo. Olha que engraçado. Talvez seja esse o segredo de quem ocupa muito o espaço dos outros, é a falta de alguém pra ficar junto.

Então alinhamos nossa despedida no café. Ela com os planos do mundo. Ele com os planos da cidade mesmo. Eram diferentes, mas naquela noite tinham sido tão iguais. Completaram as vontades um do outro. Desacreditaram tanto neles juntos, que inconscientes foram minando. Escolherem o mesmo suco, trocaram contato e descartaram os roteiros que fizeram na madrugada quando olharam as agendas do trabalho. Trocaram sorrisos, abraços gelados por preguiça e abandonaram os planos.

Mais uma história curta de amor.

Que nem prestamos atenção.

E barramos.

Esbarramos.

É.

Jorge Pedreira

Jorge Pedreira

Dois pra lá. Óculos, ruivas e drinks. Dois pra cá. Livros, cinema e futebol. Um passo para trás, falar de amor é moda, volta girando. Rimos muito. Mal me conhece e já dançamos.
Jorge Pedreira

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