A volta por cima do bordô

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{ Imagem: reprodução } 

Eram 9h30 da manhã quando me vi ajoelhada catando os pedaços do meu pó da Mac. Dizem que os deuses da “Make” não perdoam uma coisa dessas e jogam uma maldição no dia das pessoas destrambelhadas. “Quebrar maquiagem é pior que quebrar espelho”, disse meu amigo. O que veio no decorrer das horas não cabe dizer, mas deixo a dica: evitem quebrar pós da Mac de manhã. Sorte não dá.

Sei que às 11h15 eu já tinha vivido cinco dramas, sendo que três eram imaginários, um altamente precipitado e apenas um digno de lágrimas sinceras.

O bom de se ter muitas expectativas é que quando uma não se cumpre ainda temos as outras. Mas é mentira, porque expectativas devem ser como filhos, portanto, insubstituíveis. E foi bem duro deixar essa partir, tão bonita, tão promissora.

Na hora do almoço desisti do Pilates porque tava tudo errado mesmo, não ia ser uma aula que ia mudar alguma coisa, nem minha bunda parecia não ter mais conserto. Saí a procura de uma igreja, mas na Vila Olímpia só tem shopping.

Se nossas vidas são guiadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito dessa busca quanto vitrines. Eu, por exemplo, encontro respostas para a vida andando naqueles corredores em que meus pés escorregam macio. É meu divã em pé.

Quando percebi estava chorando no banheiro do shopping com música ambiente. Cena de quinta categoria, mas nem sempre a vida é cinema europeu. Eu queria muito que tivesse dado certo aquilo que tinha dado errado, e chorar foi a maneira que encontrei para me despedir dessa expectativa que havia partido precocemente.

Saí enxugando minhas lágrimas fúteis pelos corredores disposta a me presentear, já disse uma vez que sacolas exercem o poder de 20 gotas de Rivotril sobre mim. Acredito que sobre todas nós. Foi quando parei em frente à vitrine linda repleta de peças “ bordôs”. Parecia o presságio do ínicio de um inverno fabuloso. Comecei a me acalmar.

Fiquei ali parada analisando o bordô e lembrei que, até alguns anos atrás, era uma cor totalmente fora de cogitação, sem carisma, sem muita chance de dar certo e no entanto, de uns tempos para cá se tornou a queridinha das vitrines e dos closets das fashionistas. Virou Burgundy (inspirado em um vinho produzido na Borgonha) e case de sucesso no mundo das cores. Podia ser usado em palestras e livros de auto ajuda, como exemplo de superação.

Foi então que me ocorreu a analogia: se até o Bordô deu a volta por cima, eu também posso.E quando eu digo que vitrine às vezes dá mais resultado que terapia, é disso que estou falando.

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