Andei te amando

1

Leia ouvindo: Incubus – Wish You Were Here

Eu andei te amando. Sem que você soubesse. Parece loucura, mas no final tudo vai se encaixar. Andei amando a forma como você jogava o cabelo sobre os olhos. Vinha delicadamente pelo outro lado do seu rosto só pra não poder desmanchar esse sorriso. Você me fez lembrar uma das minhas melhores épocas da minha vida. Aquela onde as pessoas não se importavam com os horários ou com os deveres. Não me importava em inventar uma desculpa por ser chegar atrasado no trabalho. Culpa do engarrafamento. O maldito engarrafamento do seu abraço.

Andei te amando quando acordei e a primeira coisa que ouvi foi o seu suspiro. Quando você virou para lado oposto do meu e se aninhou com pouco cobertor e muito travesseiro. Deixava as costas nuas me encarando. Quase berrando pra ser abraçada. Era um movimento completamente involuntário para a sobrevivência. No caso, a minha. Como eu poderia ousar dar bom dia, se tudo de melhor esse dia poderia me oferecer já estava amanhecendo ao meu lado. Me diz como não amar a forma como nossos corpos se encaixavam.

Andei te amando quando sabia que você iria partir. Quando você me contou achando que estaríamos juntos. Eu já sabia que era um adeus. Você querendo voar pelo sul, sem nem sonhar que meu desejo era morar no norte. Pelo menos a melhor parte de pessoas como a gente, é que elas nunca param de seguir em frente. Risada presa na garganta. Viramos as costas um pro outro. Começamos a caminhar sabendo que o mundo é redondo. A minha certeza de estar na direção certa é saber que lá na frente eu vou te encontrar pra sorrir sem motivo outra vez. Então eu te amei mais e segui.

4fb364a3530495dd806ab80e74bf5fc7

[ Imagem: reprodução ] 

Andei te amando sem que você soubesse pra você não se prender. Pra que você pudesse seguir todas as rotas que a bussola da vida ainda tinha pra te mostrar. A gente nunca se enroscou. Não elevamos o tom de voz e nos complicávamos pra decidir algo. Por qualquer coisa ser boa. Desde que o outro estivesse presente. No nosso tempo vazio nos preenchemos tão bem. Sabia que eu te prenderia se eu quisesse. Falo isso com a mesma segurança de dizer que você me prendeu e nem viu. Ali eu te amei só.

Andei te amando longe, pra que você despejasse seus medos no meu colo. Pra que eu pudesse te deixar sem graça. Transformei seus problemas em piadas. Te fiz culpada das próprias neuras. Não descansei enquanto você não risse disso. Expulsei seus fantasmas. Amansei teu carma. Pedi calma. Até o dia em que eu pude aplaudir uma conquista tua. Torci para que você não reparasse na minha presença. Mas nossos corpos iam se atrair. Era mais forte do que a gente. Era nossa última dança.

Não combinamos as peças de roupas, não marcamos um lugar. Só sabíamos que nos encontraríamos depois de tudo. Que o dia poderia ser aquele. Deixamos nossos olhares cruzarem. Olho no olho. O choque. A pupila dilatou de saudade. A vontade de te pegar no colo eu escrevi com um sorriso. Você elegantemente me respondeu com uma piscada, típica de você. Arrumou o cabelo e não escondeu o rubor das bochechas. Sorria toda vez que me olhava. Eu me aquecia toda vez quer era olhado. Estranho entender o mundo, mas tem olhar que aperta mais do que abraço. Tem saudade que a gente mata num gole só. Outras que a gente conserva com o tempo. Que nem vinho.

Você é a melhor safra de saudade que eu já bebi, meu amor.

2015_Jorge Pedreira

Jorge Pedreira

Jorge Pedreira

Dois pra lá. Óculos, ruivas e drinks. Dois pra cá. Livros, cinema e futebol. Um passo para trás, falar de amor é moda, volta girando. Rimos muito. Mal me conhece e já dançamos.
Jorge Pedreira

Últimos posts por Jorge Pedreira (exibir todos)

1 comentário

  1. Jéssica Franzoni Diz

    Amei!

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.