APRENDENDO A CUIDAR DOS JARDINS

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A simplicidade já permeou os jardins dos quais percorri ponta a ponta. Depois de um tempo a amargura necessitada da obrigatoriedade do mundo capitalista começou a pautar os jardins e houve a necessidade de instalar bancas de livros, flores, balas e cerveja. Com isso o passeio tranquilo foi transmutado pelo passeio da descoberta, dos apontamentos alheios, na postura sempre necessária, da pronúncia correta das palavras.
A luneta da observação foi focada em atos e não mais na fofura de descobrimentos.

O pior é saber a imaturidade daquela que passeou pelos jardins e sem conhecer sobre a adubação e irrigação achou-se no direito de balizar todo o entendimento daquele espaço. Apesar de acreditar saber tudo, o tudo de seu conhecimento era quase nada. A dona do jardim caiu tantas vezes, viu plantas nascerem e morrem do nada. Comprou sementes e a guarneceu como um filho. Caiu tantas vezes que nas últimas descobriu formas de proteger a face e os joelhos, assim como a desviar de queimaduras feitas sob a manta da foice esquecida a revelia do calor do tempo.

Fotografia: Paulo Manzato Jr.

Houve ainda a necessidade de povoar seu jardim. Com animais, humanos e quiçá magia. Nem sempre foram as melhores escolhas, nem sempre serão, mas o local está povoado, com a movimentação que sua dona precisa, mas entre eles estão escondidos seus pequenos projetos preciosos de valores e entendimentos da vida, que sustentam sobre a tempestade.

Acontece que toda a caminhada com suas descobertas, aprendizados e condutas deixaram marcas. A cada queda um esfolado novo no corpo da alma. Alma que não sabia mais dizer se seria possível se sustentar ereto através de tantas falhas e ainda a crucificação própria pelas falhas. Assim a gente se agarra a ciência, agarra a religião e busca afago no desconhecido e inseguro.
Quantas vezes sozinha à noite com a alma chorando por conta da falta de um calor da companhia de outro corpo disposto a dar carinho, entendimento e um jardim mais simples.
A gente se culpa de formas inimagináveis. Se priva de alimento, de sono, de sorriso. Esconde as mazelas da vida transvestida em mulher de capa, cuja kriptonita é qualquer sorriso com baixo comprometimento, promessas e esperança.
Desistir não é uma opção, nunca foi. Mas causa uma desesperança ficar a margem de palavras e atos que maceram tão profundamente o coração ao ponto de não existir nenhuma outra solução além da tristeza absoluta escondida em sorrisos.
Luiza Pellicani

Luiza Pellicani

Jornalista que perdeu o filtro quando nasceu. Fala e faz o que dá na cabeça. É apaixonada por jornalismo, escrita, música, vida e por pessoas. Balada é comigo. Cinema é comigo. Netflix é comigo. Família é comigo. Nos amores, aproveite, as coisas podem mudar. E não esqueça, máxima do 8 ou 80 não funciona comigo.
Luiza Pellicani

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