Bicho papão

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Quando era criança, ela fazia doces em casa e saia batendo de casa em casa para vendê-los aos vizinhos. Palmas, campainha, qualquer coisa servia para chamar a atenção e abrir um sorriso no rosto… Cativar era o segredo para voltar para casa com a cesta vazia.

Se levava uma porta na cara, saia dando risada e pensando “Ainda bem! Sobra mais pra eu comer!”. Nem ligava para o “não”, ela tirava sarro, brincalhona que sempre foi. O queria mesmo era se divertir, sair para o mundo e ver o que as surpresas que a vida lhe reservavam.
Foto: Reprodução.

Ela cresceu. Virou mulher com responsabilidades que ela custou a se acostumar: trabalho, estudo, independência, vida adulta. Quanta coisa pra assimilar, quanta cobrança que parece que apareceu de repente. Esse peso assusta, é o monstro que ela encontra toda vez que olha debaixo da cama antes de dormir.

Tornou-se reservada. Não gostava mais dos olhares, da atenção, ficava encabulada. Tinha medo de errar e ser julgada, de ser mal interpretada. Um pé atrás era pouco… Tinha a perna inteira quando o assunto era amar. Jogou-se sem pensar algumas vezes antes, mas invariavelmente dava com a cara no chão.
Parece que ela sentia falta de um corre mão, onde pudesse se segurar. Que saudade que ela sentia dela mesma. Cadê você, menininha? Justo agora que ela precisa de você…
Ela pensou, e pensou demais sobre sua vida. E a única conclusão que ela chegou é: essa não sou eu. Me quero de volta. 
Depois que cresceu, começou a ter medo de bicho papão. Aquele que existe apenas em sua imaginação e que só aquela menininha pode espantar.

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