CARTA ABERTA PARA A MINHA ÉPOCA DE COLÉGIO

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Leia ouvindo: The Lumminers – Stubborn Love

Demorei 13 anos para escrever esse texto. Parto do princípio que tudo acontece quando tem que acontecer, e assim sendo, esse texto poderia ser carregado de dor, rancor e raiva. Acho que a demora foi providencial, foi escrito transbordado, cheio de amor na melhor forma, de agradecimento.

Hoje eu agradeço todos aqueles que de alguma maneira passaram pela minha vida numa época tão dolorosa. Foram anos de terapia para abraçar bem apertado essa epóca. E nada é mais libertador do que escrever esse texto para dizer que tudo ficou bem.

Os meus colegas de classe não foram generosos, pacientes ou compreensivos, me agrediram por anos com palavras, manobras e ações. Doeu muito! Mas entendi que aquilo era o que eles podiam me dar, e eu tinha que receber, tinha que aprender.

Peguei todos os meus cacos, empilhei e criei um trampolim. Por um bom tempo eles conseguiram destorcer a imagem que tive de mim mesma. Mas diante de tudo, aprendi a me abraçar e me olhar com amor.

Não foi fácil criar o trampolim, pior ainda foi pegar impulso para saltar. Mas sabe? Quando se tem medo, vai com medo mesmo.

Entendi que o efeito dessa época era o de espelho, tudo aquilo que eles distorceram em mim era distorcido neles, e tudo bem, cada um passava por uma batalha interna.

Hoje muitos deles tem filhos, e eu espero, do fundo do meu coração, que nenhuma dessas crianças passe pelo que eu passei. Acho que a pior coisa que pode acontecer a alguém é se perder da sua verdade por causa da opinião e projeção dos outros.

Boa parte dos meus professores foram incriveis, o meu verdadeiro Porto Seguro em um ambiente que me devastava dia após dia. Outros obviamente foram terríveis, o que infelizmente se fez maioria. Uma professora em especial me marcou, Edna, minha professora na segunda série. Talvez ela não saiba, mas o fato dela me detestar e fazer questão de demonstrar isso em várias situações constrangedoras em sala de aula, me fez criar de novo um trampolim. Ela foi meu incrível exemplo do ser humano que eu não queria me tornar. Tem gente que aparece na nossa vida para justamente ser assim, o nosso não exemplo. E sabe,  isso é uma benção!

Fotografia: Aline Prado

Não é tratar tal época com vitimismo, pelo contrario, acho que aquilo que mais machucou merece holofote e atenção, afinal de contas, uma parcela de culpa também era minha. Os outros só tratam a gente como nós deixamos ser tratados.

Dá um trabalho danado jogar luz nas nossas sombras, é dolorido estancar o sangue, cuidar das feridas e ao final de tudo simplesmente agradecer. É preciso esvaziar a mochila e olhar com gratidão para cada um que passou pela nossa vida, de alguma maneira, tudo que você é hoje, deve a eles.

Em contra partida volto para aquela Juliana, para os meus diários, minhas histórias, e entendo todo o contexto que fui colocada, e também me coloquei. Quando não temos referência para fazer tal análise, existe uma grande probabilidade de nos tornarmos vítimas ao invés de protagonistas da nossa própria história.

Talvez tudo aquilo tenha sido um teste para eu me tornar mais forte. Cada dia daqueles tantos anos foram degraus da longa escada que me trouxe ate aqui.

Eu queria ter sido muito mais legal comigo naquela época. Eu queria ter me abraçado mais. Queria não ter engolido tanto o choro e ficado tão quieta como minha mãe pedia. Queria, mas tudo aquilo que não fiz por mim lá atrás eu faço agora.

Me abraçar virou oração diária, ser legal comigo também. O mundo já tem opinião demais sobre mim, não quero saber nenhuma delas. Em relação aos choros e a ficar quieta, é melhor usar essa estratégia em 95% dos casos, nos outros, toca o foda-se mesmo.

Por fim, consegui finalmente entender o lado de cada um deles. Eles não souberam fazer diferente ou diferença na vida de outra pessoa, e tudo bem, cada um sabe das batalhas cotidianas que tem que enfrentar.

Ter passado pelas coisas que passei não me faz melhor ou pior do que cada um deles, pelo contrário, me coloca em outra perspectiva. E tal perspectiva me diz que se eu pudesse escolher passar ou não por tudo que eu passei, eu provavelmente escolheria passar.

Cada um dessa época, do seu jeito, me fez ser quem eu sou hoje e posso dizer? Como valeu a pena cada trampolim criado.

Obrigada.

Juliana Manzato

Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras.Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Faz da vida poesia e textos. Muitos textos!Sonhos? Vive deles
Juliana Manzato

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