CASCO

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Leia ouvindo: Wild Club – Thunder Clatter

Perdoa esse meu medo amor, por favor.

A ferida é funda, o corte é fresco e a vontade de coçar às vezes aparece.
Eu tenho pressa pelos atrasos que ainda vão vir, e quer você queira ou não, infelizmente isso tem me acompanhado pra diversos fatores da minha vida. Vale pra reuniões de negócios e pra encontros no meio da madrugada.

Na minha imaginação todo mundo dá uma lida nas entrelinhas, mas só entende quem quer. Enquanto isso, minha razão joga na minha cara toda manhã que quase sempre eu sou nebuloso e complexo. Mesmo acreditando estar sendo o mais transparente possível. Nessa minha incessante busca para enxergar o final em tudo, tenho deixado de saborear muitos momentos do agora.

A minha mania de prestar atenção demais nas coisas, me faz muitas vezes dar proporção para algumas coisas sem razão. É errado. Mas pra ser sincero, nem é tão difícil de explicar assim. A gente atropela os nossos medos através da nossa força, as de dentro e as de fora.

Usando palavras de incentivo como trilha sonora, mas às vezes tentando desviar das armadilhas, espalhamos nossos pedaços por ai. Nem toda aprendizado é indolor.

Fotografia: Juliana Manzato

Algumas cicatrizes são necessárias para evitarmos feridas maiores. Dores maiores. Não vislumbrar chegadas me fez acreditar que as largadas poderiam ser longas. Que elas poderiam levar o tempo que fosse necessário pra que eu alcançasse da minha maneira. Erramos e erraremos nas vezes em que acreditarmos que a nossa razão é a única maneira correta de atingir nossos objetivos.

Almejar não é errado. Mas cegamente sim.

E o casco pesa bastante, pois antes de ser ferida, todo machucado foi carne nossa. Aprendemos a apreciar muito mais o que temos quando perdemos de uma vez. Quando perdemos pra sempre. Quando negamos nossos verdadeiros desejos. Ou quando matamos nossas fantasias massageamos nossa covardia com o senso comum. Varreram a sujeira do outros para debaixo dos nossos tapetes comportamentais.

Acordamos atacados e espirramos. E cada um espirra de um jeito.
Mas nem todos lhe desejam saúde.

Mesmo sabendo disso, acredito que o amor é um remédio universal, distribuído pelo mundo de maneiras diferentes, disfarçado de cores, sabores, gostos e carinhos. Em doses homeopáticas nos lugares mais gelados, porém servida em abundancia nos calores tropicais.

Cada frasco com seu valor, cada dose curando pontualmente um suspiro. Transformando tosse em sorriso.

Quero que tenha paciência, pois não desejo que nosso frasco acabe.
Mas assumo que por vezes acabo bebendo nossas doses com parcimônia demais.

Dos porres que a vida me deu, sem sombras de dúvidas, as melhores ressacas amorosas que eu já provei nesta encarnação, foram nas manhãs com a tua companhia. Com o sol invadindo a nossa cama para avisar que mais um dia acaba de começar, desejando que a gente prove novos sabores e novos goles.

Embebedando nossa cura com o gosto dos nossos lábios.
Perdoa a confusão.

Jorge Pedreira

Jorge Pedreira

Dois pra lá. Óculos, ruivas e drinks. Dois pra cá. Livros, cinema e futebol. Um passo para trás, falar de amor é moda, volta girando. Rimos muito. Mal me conhece e já dançamos.
Jorge Pedreira

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