CEGO, SURDO E MUDO

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Leia ouvindo: Radiohead – Fake Plastic Tree 

Olho para trás e não consigo entender como vim parar aqui. A minha única certeza é que em algum momento soltei da minha própria mão e me perdi no meio da multidão. Acabei me encontrando nos braços de um amor, que talvez nem seja tão amor assim.

Anota ai: é uma merda se perder de si, mas caos mesmo é tentar se achar no outro.

São anos acumulados ao lado dele, brigas homéricas, e na maior parte do tempo a parceria fica de lado para se transformar em abuso, o mais puro abuso. É por isso que eu não sei como eu vim parar aqui, nunca imaginei que pudesse entrar em um relacionamento assim e mais do que isso, nunca imaginei que pudesse me anular para continuar assim.

Perdi amigas, me afastei da minha família e todos os dias me sinto prisioneira do meu próprio destino. Como é que eu vim parar aqui? Será que colocaram “boa noite Cinderela” na minha bebida e só acordei agora? É uma sensação estranha, pareço dopada do mundo, destruída, em ruínas.

Fotografia: Juliana Manzato

A luz vermelha acendeu no ano passado. Aniversário da minha mãe. Tivemos mais uma briga. Ele estava me proibindo de ir, logo no aniversário da minha mãe? Foda-se, eu fui! Era a minha mãe, minha família, meus amigos.

Nesse dia eu percebi que não existia nem mais gotas de admiração, era a comodidade de um relacionamento ruim, abusivo, anestésico também. Parece fácil para você que está vendo de fora, mas não é. Acredite, não é.  Dizem que o amor que cega, mas o que cega mesmo é a convivência. Eu sei que posso ser mais feliz sozinha, mas não consigo sair daqui, entende?

É medo, é angustia, é a história decepcionante que eu escolhi viver. Se sobra amor próprio por ai, você não imagina a falta que faz por aqui. A convivência com ele parece vício. Abusivo e muito pior do qualquer droga. É uma dependência emocional absurda, é posse e nada mais.

Amor deve ser outra coisa, tenho certeza.

Estou tentando sair dessa prisão que me meti. As sessões de terapia ajudam, as inúmeras viagens de trabalho dele também. A distância me faz ver a paz de uma vida sem ele na minha cola. Hora ou outra eu vou embora. Ensaio todos os dias a ida sem volta.

Já levei minhas roupas preferidas para a casa da minha mãe não me importo das outras ficarem por aqui. Detesto aquelas cenas de filmes onde se coloca tudo na mala e sai pela porta. Prefiro ir e deixar meus dias com ele aqui. Eu vou sair sem nada, sem qualquer exigência ou divisão do que é meu por direito. De exigências, já me bastam as dele. E dele, eu quero distancia.

Quero um novo rumo, eu tô afim de paz. A vida nova vai chegar, é só questão de tempo. É questão de movimento também.

Juliana Manzato

Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras.Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Faz da vida poesia e textos. Muitos textos!Sonhos? Vive deles
Juliana Manzato

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