Corra, menina, corra!

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Eu estava ali sentada, observando à minha volta, vendo vida, muita vida.
Triste, era assim que me sentia.

Lá na frente, beeeem lá na frente, onde a vista não alcança, eu sabia que poderia ser feliz. Lá tinha bexiga colorida, sorvete com confete, vestidinhos rodadinhos e abraços gargalhados.

Eu queria chegar lá, mas praquele destino não existe carro, não existe carona, não existe sequer uma bicicleta ou um patinete que me leve. Eu tinha mesmo era que correr.

Já haviam me dito que é um caminho esquisito. Tem umas pedras no chão, tem matagal crescendo, chove muito e faz frio. Mas do nada aparecem paisagens bonitas, pedestres boa praça, cachorrinhos bagunceiros que fazem companhia. Era intercalado e imprevisível. Mesmo assim, resolvi encarar.

Primeiro eu sentia como se não pudesse comandar minhas pernas. Queria atravessar o caminho, mesmo sem saber o que me esperava, mas não conseguia me mover. Aí eu fiz uma forcinha e levantei, achando que dali era só partir. Não deu. Elas, minhas pernas que me sustentam, tremeram feito criança quando vê bicho papão. Não desisti, dei logo a primeira avançada.

Os 100 primeiros passos foram brandos e fáceis, mas aí eu comecei a sentir preguiça. Pra que enfrentar chuvas torrenciais se aqui o sol brilha na medida certa e o vento sopra do jeito que eu gosto? A vontade era de virar e retomar as 100 andadinhas para a frente, mas ainda bem que eu tenho o espírito de competição. Preciso ganhar até de mim mesma.

Andei, torta, desengonçada, desgovernada. Comecei a pegar o jeito e acelerei o passo, para logo começar uma corridinha leve. Não demorou para aparecer os primeiros obstáculos, mas eu fui lá, cheia de confiança, e pulei. Me machuquei. Caí de cara, quebrei um osso e o coração. Remendei sozinha, com remédios caseiros da minha própria alma, e continuei.

Passei por outros maus bocados, mas vi coisa boa acontecer. Coisa muito boa aconteceu! Ganhei companheiros de corrida, larguei pesos concretos e abstratos para trás. Conheci lugares novos, e desejei parar por ali, mas era preciso continuar a corrida.

Hoje eu dei uma paradinha para vir aqui escrever, e estou em um ponto do caminho que nem eu mesma sei explicar. Não está escuro, mas falta uma cor que ainda não identifiquei. Não está chovendo, mas o sol anda tímido e inexpressivo. Mas eu sei, eu ouço o grilo da minha consciência dizer, que eu estou quase lá.

E não importa que hoje as pernas estejam tortas, NADA deve nos impedir de continuar correndo! Daqui a pouquinho eu tô chegando…

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