Então desculpa

0

Leia ouvindo: Alt-J (∆) Breezeblocks

Olha que engraçado.

Ouvi uma música e vou colocar a culpa no uísque.

Estava rindo sozinho, completamente maluco aos olhos de quem olhava ao meu redor. Não dei muita importância e segui com a minha maluquice. Tocou aquela música que não estava nas rádios em todas as estações da nossa época. Não deu pra conter o sorriso. Apertei meus olhos enquanto dava meus longos goles no copo quase cheio. Quase virei. Bati o copo no balcão e pedi que completassem. Aqui ninguém me conhece. Como você não me conhecia. Todos acreditam no que eu quiser. Como você acreditava.

Nunca entendi essa barreira que criei entre nós. Resolvi cantarolar palavras difíceis. Como se quisesse realmente criar problemas. Levei um saco de problemas dos outros e despejei em você. Você nem me pedia amor. Era só uma companhia. Com a cabeça cheia dos outros cruzei meus braços pra ti. Perdoe essa minha cegueira de sentimentos, quem pouco se escuta, muito caminha na escuridão dos outros.

Andei com a cabeça no sereno e pensei naqueles nossos poucos momentos. Do quanto foi momentaneamente essencial. Pra mim e pra você. Como se nossas assas precisassem uma da outra, só pra criar coragem de abrir. Eu ainda cruzo o seu olhar nas tuas fotos. Sei que você cruza com o meu também. Nossas memórias, ainda são as mesmas quando passamos pela segunda rua depois da rotatória. Aquele dia e naquele carro. Sem vergonha nenhuma. Na cara e do outro. Desaforamos o mundo. Um ao outro. Aquela rua podia ter até o nosso nome. Lembro-me de ti pelos arrepios que me causava descaradamente. Pelas memórias fogosas. Pelo tom de voz que você chamava o meu nome.

9937466a7deff84ce1ff20273b33c694

[ Imagem: reprodução ]

Sinto muito por ter sido tão cru. Por deixar que os fantasmas do meu passado, acompanhados dos problemas do outros, não me deixaram caminhar por mais tempo segurando a tua mão. Carrego uma cicatriz dentro do peito por mérito seu. Você me blindou do vazio.

Você, mulher, acordou. Saiu da minha cama e encostou a porta do quarto. Vestiu tua roupa e deixou minha porta destrancada. Não me beijou na testa, nem cobriu minhas costas. Apenas foi. Eu, moleque, desfalecido. Não me movia, meio culpa da bebida e meio culpa sua. Não aguentei o copo, nem me entreguei de corpo. Não existe meia coragem, moleque é moleque. Nenhuma mulher merece isso. Então você foi e eu dormi.

Não virou as costas, não gritou. Não foi grosseira e nem infantil.

Foi mulher demais pra quem foi moleque.

E criança entende quando erra.

Mesmo que demore.

Então desculpa.

Por qualquer.

Molecagem.

Beijo.

Jorge Pedreira

Jorge Pedreira

Dois pra lá. Óculos, ruivas e drinks. Dois pra cá. Livros, cinema e futebol. Um passo para trás, falar de amor é moda, volta girando. Rimos muito. Mal me conhece e já dançamos.
Jorge Pedreira

Últimos posts por Jorge Pedreira (exibir todos)

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.