MINHA MELHOR AMIGA DE 90 ANOS

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Leia ouvindo: Emicida, Vanessa da Mata – Passarinhos 

A inteligência emocional só é conquistada depois de muitos tombos para aprendizado, não sei se seria exatamente esse o conceito deste tipo de inteligência, mas acredito que boa parcela de tudo o que acaba acontecendo envolvendo o emocional precisa de aprendizado.

Pois bem, depois de tempos cultivando conselhos com amigas mais novas e muitas vezes com uma falsa inteligência emocional para conselhos amorosos e o início de uma depressão que demandava atenção, dividi os momentos de conselhos entre os apontamentos da juventude, que me conhece há pouco tempo, com uma senhorinha dona do meu coração que me conhece desde o útero.

Digamos que a Dona Vitória, minha avó, tem mais conhecimento de causa sobre a minha personalidade do que talvez até eu mesma.

Neste último ano, ando contando de tudo para ela. Desde aventuras com aquele cara que não presta pra nada e só para uma coisa, até a pessoa que anda tirando meu sono antes de dormir.

Foram diversos os conselhos a cada história. Desde surpresa por conta da “minha coragem”, segundo ela de fazer alguma coisa, até surpresa em saber que depois de tanto tempo, quase três anos, estou saindo, pasmem, apenas com um único ser.

Não posso afirmar que essa mudança de estar no momento com uma única pessoa seja culpa pela, mas acho que é um pouco por conta de seus conselhos e do mestrando chato e sem tempo mesmo, mas, ela me deu um pouco de paciência para entender o mundo onde pessoas são descartáveis como hoje.

A bagagem da vó Vitória em relacionamentos, não é tão grande como a minha, mas convenhamos, se fosse ao contrário: ela com 31 e eu com 90 acredito que teríamos uma história bem semelhante. Vovó é espevitada.

A história de vida amorosa dela, para mim, não é rica de detalhes. Sei aquele básico superficial onde acredito que quase todos estamos quando o assunto é pais ou avós.

Sei que sempre foi gata, deve ter despertado muitas paixões e destruído corações alheios. O que sei é que antes de se casar com o negão mais gato que passou pela terra, meu avô, ela teve um noivo que morreu.

Fotografia: Luiza Pellicani

A história dos meus avós é uma coisa de doido, eu não sei os detalhes de como se conheceram, mas nos confins do passado, uma espanhola “pura” com um negro que viera da pequena Itamogi, não deve ter sido lá muito fácil não. Sem falar que a bixinha também não é fácil de conviver, são “n” histórias de brigas homéricas entre eles, desde utensílios domésticos jogados na cabeça, mas cinco filhos. Então no meu imaginário, em algum ponto eles se davam bem.

Os conselhos da vó sempre foram pertinentes. Desde o momento que conheci o novo indivíduo (não sabemos ainda quanto tempo ele vai ficar, mas ‘tamo’ sendo feliz) e comecei a contar sobre tudo, dona vó já gostou da história. Foi por conta dos conselhos dela e de nenhum outro que resolvi não beijar outras bocas.

Foi na leveza do comentário para te falar a verdade. Pois primeiro contei como conheci, depois como estava me sentindo e depois disse que havia outras possibilidades.

Ela disse apenas uma frase que me fez pensar em tudo. “Oh maluquinha, você não acha que está tratando a vida como se tudo nela fosse descartável? Não acha que não está dando chances para ninguém na sua vida? E se continuar nessa toada dos últimos seis anos? Não vai abrir as portas para realmente conhecer alguém?”

Juro, se qualquer outra pessoa tivesse dito isso, não faria tanto sentido. Mas quando ouvi aquela vozinha da consciência do outro lado do telefone me coloquei a pensar. Tudo bem que do outro lado da história tem aquele medo de quem já está tão machucada por tentar se relacionar, que nunca pensamos que feridas abertas poderiam nos prejudicar de uma forma a fim de nos blindamos para qualquer tipo de sentimento.

Paro e olho para pessoas que me envolvi no passado, algumas pelo luxo próprio, outras por futilidade, outras por paixão fervilhante, mas nunca encontro uma além do primeiro amor que dei oportunidade de estreitar laços, criar vínculos, tentar entender a alma.

Casou que um conselho de uma senhorinha importante para mim viesse em conjunto com o mestrando chato sem tempo de nada ao mesmo tempo. Claro que não foi a primeira vez que me deu um conselho assim dessa magnitude, mas foi naquela clareza de mente que sabemos que não são tão rotineiros em uma pessoa de 90 anos.

Sinto, desde o dia que ela me disse isso, que não foi um conselho apenas para esse momento da vida, para apenas esse relacionamento, mas foi um conselho para tudo. Não existem seres descartáveis, não existem relacionamentos de uma noite apenas. Existem apenas o nosso medo de se entregar às coisas boas da vida.

Aí fica aquela música do D2 na cabeça: “eu me desenvolvo e evoluo com meu filho”, já no meu caso, eu me desenvolvi com a minha avó, mas sempre com conselhos fortalecidos pela minha mãe. E esses relacionamentos, não são descartáveis como algumas amizades podem ser, são conselhos que realmente nutrem a alma.

Meu medo é um dia não ter esses conselhos e não ter como brigar com a dona Vitória, mas não temos salubridade para começar nisso, principalmente por ela estar na flor da idade.

Luiza Pellicani

Luiza Pellicani

Jornalista que perdeu o filtro quando nasceu. Fala e faz o que dá na cabeça. É apaixonada por jornalismo, escrita, música, vida e por pessoas. Balada é comigo. Cinema é comigo. Netflix é comigo. Família é comigo. Nos amores, aproveite, as coisas podem mudar. E não esqueça, máxima do 8 ou 80 não funciona comigo.
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