No copo já transbordado, sempre cabe mais uma gota d’água

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Colunista Convidada: Taisa Bordignon

O sol estava no tom avermelhado e uma luz que espalhava de si mesmo na cor laranjada. No entardecer, sentada ali, na mesa do escritório, com cara de paisagem, observando as pessoas lá embaixo pela janela, Yasmin prendia-se no movimento. Carros cortando filas, pessoas atravessando sem faixa, cachorros sendo desviados… Era tudo engraçado, sendo observado do vigésimo andar. E ali se dava conta, como a vida é corrida. Como o dia acaba sem ser percebido. Como ninguém se olha na rua. Percebia que não tinha ouvido sua musica preferida, nem mesmo falado com quem amava.

Como a gentileza já não existia mais. Como as pessoas passavam por aquela árvore cheia de flores azul turquesa e nem se davam conta da sua beleza. E como o dia tinha passado e não tinha feito nada que queria. Tudo isso, com o som ensurdedor da impressora que dava ritmo em seus pensamentos. Jovem geminiana, movida por gostas de realidade e alagada de sonhos, ali, presa no escritório.  
Já eram 19h00, o estomago já sentido nas costas, foi para casa. Com os pés doendo do salto. A coluna gritando por ter ficado o dia todo sentada. A cabeça pulsante e os olhos secos, por horas na frente do computador. O caminho de volta era fácil, o carro ia sozinho, o som das buzinas entravam pelos seus ouvidos e faziam parte do seu transe. Por que Yasmin nem ali dirigindo o carro estava. Pensava na praia que há um ano não visitava. Pensava como sua cama era macia. Pensava como era o som da água do seu chuveiro, tudo isso com o estomago sentido nas costas, com os pés doendo, com a coluna gritante e com a cabeça pulsante. Era um estado automático, vegetativo e catatônico.
Estacionou o carro na garagem 62, como sempre, na mesma posição. Desejou boa noite para a velinha com vestido amarelo e chamou o elevador. Apertando o numero 8 o andar em que vivia há 36 meses, Yasmin caiu na gargalhada. Inevitavelmente, lembrou-se dos seus oito anos, da sua infância, das suas histórias, das brincadeiras sem fim. De apertar à campainha e sair correndo, jogar taco na rua até altas horas mesmo sendo uma rua na descida, aprendendo a andar de roller e as guerrinhas de bexiga com água. Ah, as guerras de bexiga com água eram divertidas. E o sorriso no rosto de Yasmin foi inevitável, a coisa mais maravilhosa que tinha acontecido naquele dia e que ela havia se dado conta.
Abriu a porta do apartamento, tudo do mesmo jeito que havia deixando, desorganizado. O chão mais empoeirado como nunca e os fios de cabelo, compridos e loiros enfeitavam o piso da sala. Yasmin nem bola deu, entrou e foi direto para o chuveiro. Onde pegou um banquinho, o colocou embaixo da água fria e sentou. De roupa e tudo, sentou. Fechou os olhos, enquanto sentia os pelos de seus braços arrepiarem, seu cabelo encharcar e sua máscara do dia de trabalho cair, chorou. Chorou o choro contido do dia sem sentido e mais ainda, a lembrança da água gelada na cabeça das guerras de bexiga. Chorou por que lembrava que estava sozinha, da dor no estomago e da saudade. Chorou pelo vazio que dominava seu peito. Chorou pela falta de musica na vida e do sentido das suas horas. Chorou pelos seus sonhos que ficavam mais distantes a cada dia, manchados pelas tintas da realidade e do capitalismo. E ali permaneceu, de olhos fechados, com água fria na cabeça, nem se sabe por quantas horas.
Imagem reprodução
No sonho, debaixo do som da água que caia na sua cabeça, imaginava-se sentada em uma pedra de três tons de cinza perto da cachoeira. E sentada ali, podia sentir o respingo das águas que caiam da cachoeira quando batiam no chão e que no seu rosto escorriam. Sentia o som da água em queda que batia dentro do seu peito, dando ritmo nas suas sensações. Sentia o vento gelado e o som das folhas das arvores batendo uma nas outras dançando no ritmo exato. Tudo era em uma sintonia indescritível.  O corpo amolecia, os olhos piscavam lentamente, o verde tinha um tom nunca visto antes. Deitando-se na pedra, sentiu o gelado nas costas, e seu formato redondo aconchegava o estado de um feto. E ali adormeceu.
Acordando no susto, Yasmin caiu no riacho da cachoeira e ali perdia o fôlego com tanta água. Esta cobria sua cabeça e a pressão da cachoeira caia sobre ela e a afundava para baixo da superfície. Respirava fundo quando subia, mas seus pés não lhe davam firmeza, as gotas de água a impossibilitavam de abrir os olhos e não tinha mais forças para lutar. A cachoeira a engolia e a forçava a ser parte dela mesma. O riacho era fundo e silencio. E afundou. Embaixo d’água observava as arvores lá fora, o silencio lá embaixo a dominava, não respirava, não falava e não lutava mais para não afundar. Soltou seu corpo e deixou ser dominada pela paz que ali embaixo o riacho a oferecia.
De repente, acordou cuspindo água, deitada no chão do banheiro, com a água do chuveiro gelada caindo sobre sua cabeça. Puxou o ar mais profundamente que podia, levantou a cabeça ainda tonta e respirou novamente checando ainda estar viva.
Com as mãos ainda enrugadas desligou o chuveiro, secou-se com a toalha já áspera de tanto uso. Jogou a roupa no chão  e foi para o quarto. As pernas meio moles, cambaleando andou pelo corredor. Pelada, com frio, sem ar, com fome e exausta.  Deitou em sua cama e relaxou. Questionava o que havia sido aquele sonho, tão real, tão sentido no próprio corpo. Havia tentado se matar? Havia relaxado inteiramente que o sonho a conduziu? Com duvidas na cabeça deitou em sua cama. Sentia que o colchão desenhava-se com seu corpo e o lençol com cheiro de amaciante trazia lembranças boas. 
O corpo foi ficando leve. Questionava-se da felicidade, o que ela queria para a sua vida, se estava feliz com o que fazia, com quem se relacionava, se acreditava em seus amigos, se tudo aquilo valia a pena. Sabia que tinha capacidade, que precisava mudar, que poderia trabalhar e buscar o que gostava e almejava. Poderia dar sentido a sua vida. Sabia que podia fazer tudo diferente. Por que em copo já transbordado, sempre cabe mais uma gota d’água.

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