O MEU LAR É ONDE EU DECIDI ESTAR

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Leia ouvindo: The Cinematic Orchestra – To Build a Home

O coração parou por uns segundos por conta do nascimento de mais uma fofurinha. Um chá de bebê perdido por conta de uma gripe. Uma peripécia de um sobrinho perdida que pude apenas ouvir os relatos. Aquele chá da tarde na casa da madrinha. A visita dos primos na casa da minha mãe.

Fechar os olhos e lembrar que nas manhãs, o sol ilumina a casa toda pelo jardim de inverno, onde uma fonte, suntuosamente colocada, assim como na parte de fora o verde do jardim fica inebriante. A rotina vai entrando com o fluxo das águas e dando abertura e ritmo das manhãs. Tudo isso revestido pelo cheiro delicioso do café feito pelo grande amor da minha vida, meu pai.

Por aquelas paredes estão impregnadas tantas lembranças, meu riso e meu choro de criança, a birra adolescente, a chegada da fase adulta. Sonhos de uma vida, um carro novo, histórias de amor, de conflito e claro de cada momento, briga, pazes, com os meus irmãos.

Tanta coisa é deixada para trás quando decidimos desbravar o mundo. Uma decisão que só sabe quem o fez. Um sentimento de perder e ganhar algo ao mesmo tempo.

Ao me mudar de cidade – está não é a primeira vez –  decidi deixar para trás toda a segurança e conforto do meu lar. Onde estavam as pessoas que conhecia, a família e principalmente ruas e avenidas onde desferi toda a minha sobriedade e não sobriedade da vida. Deixei também histórias que fazem parte de mim e nunca poderei acompanhar.

Fotografia: Juliana Manzato

Às vezes a recordação lacera a alma, afinal, foi naquela cidade e em suas mesas e cadeiras de vários cantos que aprendi a escrever, caminhar, sofrer, amar e a viver.

Agora o meu lar é construído a 200 km de distância do meu porto seguro. Ainda fica na alma os momentos perdidos. Mas pedra por pedra formada por amizade, companheirismo são criadas novas essências sem laços sanguíneos, com muita irmandade.

Ganhei com a distância a liberdade da alma. De vagar rumos que são meus, em meio a uma loucura conquistada dia a pós dia. Lidando todos os momentos com meu comprometimento ou a falta dele.

Com a distância criei novas famílias. Com a distância criei meu próprio lar.

Comprei cadeiras e mesa, um sofá de pallet que não tem a cara da minha mãe. Uma casa de casal. E o revesti com muito amor em todas as paredes.

Nesse meu lar não tem o preenchimento dos meus irmãos. Cada um num canto, criando seu próprio lar. Mas eu estou criando uma casa, um lar para mim mesma. Afinal, o lar é onde a gente decide estar. Mas meu coração, ah, esse sempre estará onde meus pais estão.

Luiza Pellicani

Luiza Pellicani

Jornalista que perdeu o filtro quando nasceu. Fala e faz o que dá na cabeça. É apaixonada por jornalismo, escrita, música, vida e por pessoas. Balada é comigo. Cinema é comigo. Netflix é comigo. Família é comigo. Nos amores, aproveite, as coisas podem mudar. E não esqueça, máxima do 8 ou 80 não funciona comigo.
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