Ondas

0

Leia ouvindo: Coldplay – Ink

Por que fazemos o que fazemos? Por que não fazemos o que não fazemos? Perguntas tão comuns e recorrentes nesse mundo pós-moderno em que vivemos. Em um mundo líquido (como disse Bauman), estamos em busca de referências sólidas para nortearem a nossa rápida passagem por aqui.

Na busca por um norte, por um propósito, por vezes acabamos paralisando. Não saindo do lugar, afinal, qualquer passo dado será em vão, uma vez que não sei para onde quero ir. Como diz o gato da Alice, “qualquer caminho serve para quem não sabe onde quer ir”. Eu acredito que a grande questão não é definir um lugar para ir, mas sim sabermos como devemos agir caso venhamos a mudar de ideia no meio do caminho.

É interessante analisar esse comportamento, exclusivo do Homem (ser humano), afinal, somos os únicos que temos dúvidas sobre qual é o nosso papel nesse planeta. Cada ser do nosso ecossistema tem uma função pré-estabelecida nesse mundão maluco e as cumprem sem crises existenciais. Ou alguém já viu uma abelha em depressão pedir demissão da colmeia?

Alguns, desde pequenos, já sabem o que vieram fazer nessa jornada. Outros descobrem ao longo da caminhada aquilo que faz seus corações vibrarem. Mas é inegável que a grande maioria passa por essa sem ter a menor ideia do que está fazendo. Muitos não se permitem sequer pensarem a respeito disso, e preenchem todo e qualquer espaço que a vida lhes fornece com fugas e distrações. É uma pena que estejam fazendo da vida, que já é curta, também pequena.

482c0a243bb5f77a8e41792fb3222643

[ Imagem: reprodução / pinterest ]

Há aqueles que despertam e iniciam movimentos em prol de uma vida mais substancial e representativa. Nessa incerteza absoluta, buscamos indicativos que mostrem que nossas ações fazem sentido e devem ser mantidas. Um desses indicativos é como o externo percebe e reage às nossas ações.

O grande ponto é que não fomos ensinados, logo não desenvolvemos um pensamento de longo prazo. Buscamos reconhecimento imediato sobre aquilo que falamos, fazemos e criamos. Isso nem sempre vem, e é aí que muitos sonhos desmoronam. Pessoas que desistem de seus sonhos depois de 1 ou 2 meses de tentativas sem o devido retorno. Ora, como assim desistir de um sonho de uma vida por causa de alguns meses? Voltam para suas vidas e rotinas infelizes e se confortam com o fato de terem tentado. Sei que cada um possui um contexto de vida e eu não estou aqui para julgá-los. Estou aqui para falar sobre o que eu penso sobre iniciar um movimento. Sobre resiliência. Sobre paciência. Sobre comprometimento.

Tive acesso a esse ensinamento de um grande amigo meu. Que recebe semanalmente os meus textos (me comprometi a escrever 52 textos em 52 semanas), mas me confessou que lê apenas alguns deles. Outros acabam ficando na caixa de entrada ou até mesmo entram no filtro de spam. Eu poderia me perguntar a troco de que estou fazendo isso. Escrever toda semana um texto sem nem saber se as pessoas estão lendo ou sequer recebendo. O fato é que isso não tem a menor importância e ele usou uma analogia que explica muito bem isso: o movimento das ondas.

Não sou, mas conheço vários amigos que são surfistas. Frequentemente rumam ao litoral com suas pranchas no teto do carro para aproveitarem um fim de semana de calor. Nem sempre encontram as ondas que esperavam. Outras vezes surfam as ondas de suas vidas. Conheço muitas histórias de surfistas. Mas trago aqui um outro ponto de vista. O ponto de vista do mar. O responsável pelas ondas. Que, com ou sem surfista, continua fazendo suas ondas. Ondas pequenas, ondas grandes, ondas frequentes, ondas espaçadas, enfim… ondas. Por quê? Porque esse é um dos papéis do mar. Criar ondas. Independente se alguém estará lá para surfá-las. E assim devemos encarar os nossos movimentos quando sentimos que são genuínos. Devemos seguir nosso rumo, dentro do nosso ritmo, da nossa energia, do nosso momento. Podemos estar criando ondas grandes, ondas pequenas, podemos até estar na “marola”, mas ainda assim seguimos aquilo que nos determinamos a fazer.

Escrever 52 textos talvez não faça nenhum sentido para muitas pessoas. Duvido que consiga agradar a todos com todos os 52 textos. Aliás, não acredito que uma única pessoa se identifique e “surfe” os 52 textos. Mas eu sei que, em algum momento, em algum texto, alguém estará lá para “surfar” aquela onda.

Eu, que não posso (e nem quero) controlar isso, continuo aqui. Comprometido e determinado a concluir essa missão. Seria essa a minha missão de vida? Não acredito, mas também não duvido. Na ausência das respostas, sigo me movimentando.

O psiquiatra Flavio Gikovate diz que a vida não tem sentido algum, mas que não é proibido lhe dar um. Eu escolhi um sentido e estou caminhando em sua direção. Assim como o mar, sigo criando minhas ondas. E você, o que está criando?

Tiago Fiamenghi

Tiago Fiamenghi

Sou o que sou. Sonhador, idealista, realizador. Empreendo socialmente e acredito que pequenos gestos podem sim fazer uma grande diferença.
Tiago Fiamenghi

Últimos posts por Tiago Fiamenghi (exibir todos)

You might also like More from author

Leave A Reply

Your email address will not be published.