Outro ângulo

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Quando fiz 10 anos ganhei da minha mãe o livro Pollyana, claro que com aquela idade eu não entendi muito bem o significado de toda história, mas vi boas razões para começar a olhar a vida de outros ângulos.

Hoje, depois de 15 anos, entendo que esse foi o melhor presente que eu ganhei da vida e entendo o recado que a minha mãe estava me dando. Ela estava me preparando para os problemas futuros, que como qualquer ser humano eu teria. Como amo minha mãe por isso.

Até hoje ela me dá lições por conta do livro, por que na verdade minha mãe é meio Pollyana. Ela vê o lado bom em tudo, até quando o céu parece desabar na nossa cabeça. Sim, ela dá um baile em positividade, nisso não puxei muito ela, sou reclamona e por vezes acho que não vai dar certo, mas claro, perder a fé nunca. Em 2009 minha vida virou de cabeça para baixo em MUITOS sentidos, mas com certeza o pior deles foi saber que a minha mãe estava com câncer de mama. Foi um balde de água fria, uma dor, um medo de perder uma das pessoas mais importantes da minha vida insano. O meu medo de filha era o oposto da minha mãe, positiva, cheia de fé e com o terço enrolado nas mãos até na hora da cirurgia. Foi a maior lição de Pollyana que tive na vida. Ela só queria ficar curada, e conseguiu. Nunca reclamou dos exames, da pós cirurgia, de ter uma cicatriz para o resto da vida ou das sessões de radioterapia (graças a Deus quimioterapia ela não precisou fazer). Batalhou até o fim, NUNCA disse que estava com câncer, aliás, essa palavra nunca foi dita dentro de casa. Uns diziam, “Sônia, você está bem?” e ela respondia com o sorriso no rosto, “Estou ótima”. E ela estava. Foi um alívio, uma felicidade, uma sensação que até hoje eu não consigo explicar. Minha mãe estava viva e sorrindo do meu lado. E continua sorrindo ao meu lado e me dando força e vários “tapas” na cara, quando eu digo que os meus problemas são grandes.

Quando eu perguntei porque ela teve câncer, porque a gente tinha que passar por aquilo, ela me respondeu: “pra gente nunca perder a fé.” e ainda completou, “filha, é pra gente entender que a vida pode acabar num cisco e que precisamos valorizar o que realmente importa”. Claro que caímos no choro, e confesso que escrevendo esse texto e relembrando do que passamos junta, chorei.

Imagem: reprodução

Hoje sei que a Pollyana não foi só um livro importante na vida da minha mãe ou na minha, foi uma lição aprendida que por vezes, confesso, é esquecida. Achamos que estamos no caminho errado, fazendo escolhas erradas e que tudo vai dar errado, esquecemos de ver o lado bom, o ponto positivo daquilo acontecer. A vida não é a tragédia que fazemos dela. Olhar o lado bom de tudo, por mais trágico que seja, parece não fazer sentido, mas faz. “Perdeu” a amizade de uma amiga por coisa boba? Pense que talvez aquela amizade não fosse tão boa assim. Quantas outras amigas incríveis você tem? Sofreu por um amor? Será que era um amor tão bom assim? Um outro amor pode aparecer. Perdeu o emprego? Será que não é a vida pedindo para você fazer coisas novas? Quem sabe amanhã você não entra no emprego dos seus sonhos.

As tragédias cotidianas fazem a vida dar a virada, a guinada necessária para alcançarmos a felicidade, que sabemos como ninguém, nunca é plena, mas pode ser entendida e valorizada na hora que chegar. A vida nunca vai ser perfeita, a família margarina pode ter um café da manhã lindo, mas tem problemas saindo dali. A grama do vizinho é mais verde aos nossos olhos, mas a nossa pode ser muito mais verde para ele. E olha que Caetano, sempre genial, sabia da dor e da delícia de ser o que somos.

Olhar pelo ângulo do lado bom pode ser um exercício difícil no começo, mas com o tempo fica mais fácil que matemática ou física, justamente por não ser exato e quadrado. O ângulo do lado bom é o ângulo do amor, olhe as coisas com mais amor e talvez ache boas soluções.

Ainda estou na pré-escola do ângulo do lado bom, mas não desisto. Na listinha de afazeres de 2013 com certeza um dos itens será o ângulo do lado bom. Porque as coisas só acontecem, quando a gente quer.

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