Só amor

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Ela não queria mais nada, só amor.
Amor de bom dia, boa noite, de dia-dia. Amor nas coisas, mais amor nas pessoas, nas atitudes. Na cabeça dela era simples, o amor estava em tudo que fazia, dos jantares aos trocados dados aos meninos de rua.
Ela vivia de amor, dizia que o amor alimentava o mundo e era através dele que as mudanças aconteciam. Dizia também que as pessoas mudavam, mas precisavam de muito amor e tempo para isso. Quando perguntavam a formula mágica para a solução dos problemas, era essa a resposta: amor e tempo. Nem um pouco errada.

Trocava as ofensas por palavras doces, as críticas aceitava bem, mas em silêncio, por que muitas vezes sabia que não eram críticas construtivas, era só inveja. Não conseguia entender como existia pessoas mal amadas, mas sabia que exista e lidava com elas, com amor é claro.
Ela achava que o amor também estava no silêncio. Gostava de ficar quieta, sozinha, amando ela mesma. Ela amava o silêncio por que dizia que dava para ouvir o som do amor, as batidas do coração. Só amor.
Ela chorava também. Chorava pelo mal do mundo, pela falta de amor, por felicidade ou quando o dia tinha sido difícil. Chorar era um ritual, assim como rezar.
Ela tinha fé. Rezava muito, baixinho, com o terço de contos do rosário enrolado nas mãos. Quando perguntavam por que tanta reza ela respondia, é amor. Tinha fé que no final tudo daria certo, que não adiantava brigar com a situação. Não adiantava brigar com nada, dizia ela.
Ela amava demais. O coração dela não tinha tamanho de tão grande, cabia de tudo e todos. Vivia a vida dela, da maneira dela, sem dar importância ao que os outros diziam. O maior amor que ela tinha pela vida, era a vida. Era um amor que transbordava nas atitudes, nos afazeres da casa e no bolo que fazia para os netos e bisnetos. A sopa dela também era mágica! A cozinha era mais que um caso de amor. Amava o fogão de lenha e o café coado naquele velho coador de pano. Na verdade todo mundo ali amava.
Ela ensinou amar demais, a cuidar demais, a ter um coração grande demais. Tinha as dores da vida, mas o sorriso era tão gostoso, leve. Acho que de tanto amor, ela deve ter virado um coração, daqueles bem bonitos. Não sabia ler ou escrever, por que o pai achava que mulher não precisava dessas coisas. Lembro de vê-la pegando livros e querendo entender o que estava ali. Prometi que ensinaria ela ler e escrever, não deu tempo.
Ela sabia uma coisa mais importante que ler e escrever, ela sabia viver com amor. E isso bastava.

2 Comentários

  1. Anonymous Diz

    Que lindo texto. Identifiquei-me em mtas coisas que nunca procurei decifrar! Parabéns Juliana! Bjos, Lu.

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