Só mais uma taça…

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“Juro, é só mais uma taça pra ficar feliz”, dizia ela entre os goles da doce e borbulhante champagne.
Ali na pista de dança, já descalça, ela era feliz. Esquecia dos problemas, das agonias e tristezas que logo, logo lembraria. Era só sair dali e ver a luz do dia. A perfeita Cinderela, que depois de um tempo voltaria a realidade.

A sede de felicidade era tanta que foram várias garrafas e muitos sorrisos. Sorrisos e olhares distribuídos para as pessoas que passavam por ali. Naquele momento era feliz. Na pista mesmo ela encontrava o príncipe, sem cavalo branco ou uma torre alta para escalar. O beijo apaixonado era fácil, ela era bonita. A música, o ambiente, as pessoas, tudo levava a felicidade para ela.

Imagem: reprodução

A felicidade era o motivo para sair todas as noites. Sempre com uma taça nas mãos e sorriso largo no rosto. Mal sabiam eles que no dia-dia o sorriso era difícil, as roupas eram – bem – mais largas e no lugar da taça tinha uma xícara de café amargo.

Era mais fácil ser feliz na pista de dança, escolhendo uma roupa atraente e passando batom vermelho, do quê escolher um caminho para vida. A taça era uma fuga. Era a Alice no país das maravilhas. A Cinderela no baile de Gala com o príncipe. Era só um momento feliz e a realidade amarga, como o café de todo dia. Ela tentava achar algo doce, mas não conseguia. A vida era borbulhante e gostosa demais na pista de dança.

Ela tinha uma família que amava, amigos, um trabalho, olhos bonitos, roupas estilosas, mas não tinha amor. Amor pra si e pelo outro. Não faltava pretendente, faltava amar. Faltava olhar menos para o umbigo e mais para o horizonte. Olhar para dentro para entender o lado de fora. Faltava perder os medos, abrir o coração, beijar um príncipe certo. Faltava mudar de vida. Faltava colocar amor em tudo. Era comodidade demais ser quem ela era. Quantas coisas não deixamos de fazer por comodidade? A comodidade não deixa a gente acreditar que tudo pode ser diferente, inclusive a gente.
Movimentar a vida com uma taça de champagne na mão, não é movimento. Champagne a gente toma para comemorar, brindar. Os motivos para isso acontecer dependem de você. Você continuando querendo o aquário depois que descobre o mar? Liberdade e escolha, é coisa nossa. Os outros são os outros, e champagne não vem com felicidade. Felicidade vem da gente.

7 Comentários

  1. Kamillla Diz

    Parabéns! adorei o texto!

  2. Anonymous Diz

    Seus textos são perfeitos…Triste, mas já fui uma cinderela até algo acontecer e tudo mudar…A tormenta levou sonhos infantis, mas deixou a habilidade de pensar…

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