Teu espaço

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Na verdade eu chorei bastante. Talvez eu até tivesse um pouco de vergonha de assumir isso pra qualquer pessoa que não fosse você. Mas eu coloquei pra fora cada sentimento que eu tinha por ti em forma de lágrimas. Acomodei-me no sofá de uma maneira tão incrível que praticamente fiquei enterrada nele. Até que aquele cantinho que eu chamava de meu tomasse totalmente a forma do meu corpo. Parei aquela série que assistíamos juntos e comecei uma um pouco mais dramática.

Tive que engolir esse meu orgulho junto com o pote de sorvete que já tinha entrado na minha dieta. Fiz tudo isso pra que quando eu parasse, eu parasse pra sempre. Pra dizer que eu não passei vontade em sentir aquela dor. Levantei, caminhei tranquilamente até o banheiro e lavei o meu rosto pra tirar aquele gosto do teu rosto que tinha nas minhas lágrimas. Prendi o cabelo e deixei aquela minha cara inchada sorrir pra mim. Botei você pra fora. Só estava passando pelos efeitos colaterais disso.

Quando cheguei naquela mesa de bar, o único assunto que não foi tocado era o espaço entre nós dois. Poucos assuntos eram atuais. Fui esquecendo graças a uma deliciosa surra de lembranças que as minhas amigas resolveram me presentear. Que o meu rolo do colégio tinha casado com aquela menina que eu detestava. Arrastamos o assunto até o momento em que concordamos que eles sempre combinavam. Entre tequilas e outros drinks que já estavam sem sabor. Pedimos a conta lembrando que aquele menino, que sempre me passou as respostas das provas, tinha ficado uma graça por ter deixado a barba crescer.

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[ Imagem: reprodução ] 

Saí de lá sabendo que meu telefone iria parar na lista de contatos dele. O rubor das minhas bochechas era mais de alegria do que de vergonha. Depois de tanto tempo eu tinha um frio na barriga, tinha até um pouco de espaço para as borboletas no estômago. Espaço, aliás, foi a única coisa que faltou na baliza do carro estacionado na frente do meu.

Outro raladinho pra eu carregar por aí. Que se eu quisesse solucionar, poderia. Mas talvez ele não me incomodasse tanto quando a minha caixa de e-mail recebeu o aviso da última fase daquele meu processo de trainee que você me fez acreditar que já tinha acabado pela falta de notícias.

Então sem muitas poesias ou devaneios, talvez a única coisa que você me pediu naquela noite voltando de viagem. Eu precisei sentir de verdade para poder dar o devido valor. Então eu realmente agradeço pela sua coragem de me pedir algo que talvez eu nunca tivesse coragem de te pedir.

Então, naquele tal espaço que você me pediu eu coloquei algumas coisas. Uma cerveja gelada com as meninas, o abraço quente e um carinho de uma barba conhecida, um novo emprego que está chegando, um mecânico porco que tem o cachorro mais fofo do mundo na oficina e um chá de bebê da minha melhor amiga.Ou seja, querido, não tem espaço pra você.

Se cuida.

Abração.

2015_Jorge Pedreira

Jorge Pedreira

Jorge Pedreira

Dois pra lá. Óculos, ruivas e drinks. Dois pra cá. Livros, cinema e futebol. Um passo para trás, falar de amor é moda, volta girando. Rimos muito. Mal me conhece e já dançamos.
Jorge Pedreira

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