Transformando rachaduras em janelas

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“Existe uma rachadura, uma rachadura em tudo. É por ela que entra a luz.” 
Leonard Cohen 

A gente gosta do sol e da luz do dia, mas se esconde em um blackout quase infinito, com apenas um fiapinho de claridade. Não há de se desacreditar completamente de uma vida afogada em paz imensurável, mas a escuridão é sombriamente atrativa. Faz ninar e nos fecha os olhos.

Por que se espremer no meio da rachadura para tentar buscar a luz? É estreito e apertado, vai doer. Vai arranhar. Vai deixar feridas que viram cicatrizes. Vai dar trabalho. Muito trabalho.

Imagem: reprodução

Aninhados no breu, optamos por confabular sobre o que existe do outro lado desse mistério. Derrubamos lágrimas pesadas porque acreditamos que não somos passíveis de escolha. Não nos indicaram para o lado de lá, a ruptura natural da nossa história é uma única amostra do que é a vida iluminada.

Mesquinhos, é isso que nós somos. Tapamos os olhos para o que há de mais óbvio na obscuridade porque a ilusão, apesar de tanto pesar, é de que ali é um lugar confortável. Cobranças são fadadas ao ostracismo, compaixão vira um soro na nossa veia e chorar até que nos dá um sono bom. Patético.

Ter medo é intrínseco, mas depois da tempestade vem a calmaria. Acumulam-se os instintos de sobrevivência e encara-se os fatos: e se a gente transformar rachaduras em janelas? Grandes, amplas, livres de cortinas. Vai dar para ver o sol, vai dar para sentir o vento. Vai dar para ouvir barulho de gente, vai dar para idealizar cores. Vai dar para começar a viver e parar de somente sobreviver.

Fácil? Ninguém disse que seria. Mas faz assim: acredite na coragem, derrube um grande pedaço da parede e construa janelas. Não ficou satisfeito? Quer mais do que a miragem? Ótimo. Então quando elas estiverem prontinhas e você perceber que o seu trabalho já foi feito, faz o que eu fiz: pule-as.

Imagem: reprodução

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