#Cápsulas | Vamos?

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Leia ouvindo: Josh Rouse – Under your charms

Embolado nas minhas roupas bagunçadas da semana. Cabelo despenteado e a vontade de ficar em casa depois de passar todo o meu dia fora do meu quarto.

Dos convites que passeiam pela tela do meu celular, apenas um deles mexe com a minha preguiça. Amiga de longa data, morando fora do país, visitando a terra natal. Escolheu nosso restaurante escondido favorito. A saudade e o imediatismo debatem fervorosamente dentro de mim.

Poderia ter avisado antes, mas isso sem duvida só espalharia meus glóbulos reativos da vontade-infinita-de-ficar-na-minha cama.

A carência do abraço dela foi lembrada em todas as nossas ligações que fizemos. Um formigamento fora do meu corpo e uma pedaço de carinho que sempre encaixo dentro do meu peito. Briga boa. Mas hoje a preguiça vai vencer. Não vai. A fome é maior do qualquer desculpa. Vai sim. Caralho, cadê meu sapato. Vamos nessa porra. Te amo odiando.

Garoa torta na terra do sol infinito. Ela culpa a estação do ano. Argumento que ontem não foi assim. Dentro da mesma estação. Ela sorri complacente. Tirando o sol e você, já tínhamos tudo, cutuco. Ela não liga e ainda pula nos meus braços. Provavelmente o abraço mais encaixado que já recebi.

Num falso silêncio de rua, embalado pelo violeiro que trança as notas que são tocadas dentro espaço. Transporto-me por dez anos em vinte segundos de toque. Almas elevadas se alinhando.

Acredito que abraços são reposições sistemáticas das nossas prateleiras emocionais. E eu estava precisando demais dos serviços dela. Nossos assuntos, não são só nossos. Arrogância acreditar que só o meu carinho faz falta. Portanto, partilhamos a mesa com a única pessoa pontual do ambiente. Aproveitando que nosso elo que baila além do oceano presente, me desculpo pelo atraso. Ela acena com a cabeça dizendo me entender, se pudesse nem viria. Pronto. Amor ao primeiro sarcasmo.

Se ainda não contei o quanto sou impulsivo, espero ter deixado claro o quanto sou intenso. Antes das entradas chegarem já estava encantado pelo doce tom da sua voz. Entradas que preencheram o hiato entre meu atraso e aquela taça de vinho. Mais um vinho para que eu possa tenha assunto quando falamos do seu cabelo. O novo. O dela. Eu nem tenho.

Fotografia: Juliana Manzato

A insegurança dela me contava sobre os medos de que ele não combinasse com ela. Eu gargalhando baixinho e tentando explicar sem parecer um cretino que ainda precisam inventar algo nesse mundo que não harmonize com seu rosto lindo. Saudável e piegas. O abraço que nunca foi dado finalmente encontrou repouso numa prateleira bagunçada. Nossas músicas favoritas combinavam. Assunto fervoroso e intenso. Religião e políticas, suspensos até o próximo horário comercial.

Ela projetando um futuro enquanto conta parábolas do passado. Eu fugindo do meu ócio moderno. Nosso elo diz que vai ao banheiro, mas volta com a sua conta paga. Sorrimos envergonhados e previsíveis. Ela desejando arrumar a marca de sol do biquíni. Eu incomodado com minha marca de sol do relógio.

Bailando em dúvidas dos outros. Como vou tratar de escolher uma sobremesa. Se ainda não consegui formalizar meu convite para assistirmos nosso novo filme favorito.

Pré-estreia amanhã, vamos?

Jorge Pedreira

Dois pra lá. Óculos, ruivas e drinks. Dois pra cá. Livros, cinema e futebol. Um passo para trás, falar de amor é moda, volta girando. Rimos muito. Mal me conhece e já dançamos.
Jorge Pedreira

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