A BRASA EM MEIO AO NADA

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Leia ouvindo: Julia Pimenta – Derradeiro 

Caminhar sem rumo, de olhos fechados, apenas deixando que as pernas te levem sem pensar muito no destino. Independente da parceira na jornada, o Sol ou a Lua, refutando todos os perigosos eminentes do gênero não escolhidos, mas que me fora dado, e por ela amado e referendado sempre que podia. Ser mulher e ter que se distrair na caminhada perambulando na madrugada nem sempre é uma boa premissa de escolha.

Não passava das 20h, haviam nas ruas casais com seus cachorros, motoqueiros com suas entregas urgentes aos famintos e alguns conhecidos nos bares ao redor.

Tudo o que precisava era respirar o ar mais fresco. Não queria pensar em tudo o que ocorreu nos últimos dias. Não queria pensar nas lágrimas engolidas à seco presas dentro de globos oculares repressores de sentimentos.

Tinha que ser forte. Prometeu que seria forte. E para isso, nem uma lágrima passaria daquela redoma de força.

Colocou, uma a uma, suas capas durante as suas divagações no andar daquela noite. De repente, um bip do celular a retirou de sua transe momentânea. Um convite. Uma amiga queria cia para jantar sopa. Por que não? pensou.

Ciente das mazelas da vida, entendia que aquele era o momento para alimentar os melhores sentimentos diante da jornada de dores que percorria. Só tinha um problema, passaria por aquela sacada, naquele prédio azul, branco e vermelho.

Fotografia: Juliana Manzato

Sabia de cor os sacolejos daquele elevador até o sexto andar, sabia de cor como a porta faz um barulho plástico de um plotter desalinhado em sua abertura. Sabia dos seus cheiros e caminhos sem acender a luz. Sabia o formato da pia e de seu residente.

O saber era tudo aquilo que não gostaria de lembrar. Nenhuma lágrima escorreu, apesar da lamúria da alma.

Sem querer, lembrou daquele corpo e riso. Um leve arrependimento chegou. Sabia que aquela alma desejada – e perdida, jamais poderia ser sua. Não tinha escolhas, aquela alma causava dor, sofrimento e lágrimas.

Suspirou e olhou a sacada escura – todas as luzes daquele sexto andar estavam apagadas, assim como sua luz própria. Tudo parecia escuro. Ao longe observou a luz que aparecia e sumia, era a tragada de um cigarro conhecido e sua presença.

Os segundos de tristeza transbordaram em gotas, que escorriam na face sem perceber. Nos segundos seguintes, de lucidez, enxugou. Deu as costas e se fez ausência.

Partiu para os braços, aconchego e pratos de sopa dos amigos. Fez então, claridade.

Luiza Pellicani

Jornalista que perdeu o filtro quando nasceu. Fala e faz o que dá na cabeça. É apaixonada por jornalismo, escrita, música, vida e por pessoas. Balada é comigo. Cinema é comigo. Netflix é comigo. Família é comigo. Nos amores, aproveite, as coisas podem mudar. E não esqueça, máxima do 8 ou 80 não funciona comigo.
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