a carta que eu nunca te entreguei

Leia ouvindo: American Honey – Lady Antebellum (Fernando e Felipe cover) 

Apaguei o começo desta carta de resposta mais de cinco vezes. Minhas mãos ainda suavam de nervosismo, o coração acelerou todo desregulado e eu ainda não acreditava em cada palavra que você escreveu pra mim. Apaguei por achar sem sentido, por não acreditar que estava do teu nível. Apaguei por não achar nenhum parágrafo digno de ser chamado de começo. Mas como é que eu posso chamar de começo uma história tão bonita que a gente sabe que não teve um final?

Eu lembrei até a temperatura que o nosso cobertor ficava quando a gente deitava junto, quando li naquele versinho da carta de que você ainda dá risada sozinha quando lembra das minhas loucuras. Lembrei que a gente prometeu uma porrada de coisas um pro outro. Cumpriu algumas, substituiu outras e ainda temos uma lista enorme de coisas pra cumprir. Nas entrelinhas da tua carta eu consegui interpretar que a gente ainda vai riscar algumas coisas pendentes dessa lista juntos, não é?

Coloquei aquela música que a gente chamava de nossa pra tocar literalmente o dia inteiro. Vesti aquela minha camiseta que em você parecia um vestido, mas você adorava usar depois que a gente bagunçava os lençóis da minha cama. Fiquei na minha casa sozinho durante o domingo, curtindo a tua ausência e ouvido a tua risada dentro da minha cabeça. Fiquei aproveitando o silêncio que o meu egoísmo com gotas de orgulho me colocou.

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[ Imagem: reprodução ] 

Fiz tudo completamente errado, como manda meu manual de homem moderno. Mantive meu sorriso largo e olho quase fechando nas fotos, pra que ninguém reparasse quando eles marejassem. Me vendi forte e sem coração para o mundo e deixei até a barba crescer. Só que falar o teu nome ainda me faz gaguejar e quando estamos no mesmo ambiente meu coração ainda balança. De todos os remédios que eu tomei desde que você se foi, os que tiveram melhor efeito no meus sintomas foram as nossas fotos mais felizes juntos. Por isso eu ainda tenho todas elas, viu?

Visitei a cidade aonde você mora, abri o seu número no celular e fiquei acariciando a tua foto. Desisti de te avisar e entrei em um bar. Pedi uma dose de uísque e adicionei duas colheres de saudades do teu sorriso nele. Olhava para as pessoas da mesa, para os casais do bar e a única coisa que eu conseguia perguntar pra vida era simplesmente aonde eu enfiei a minha cabeça quando te deixei partir.

Quero que saiba que as coisas por aqui estão boas, que vez ou outra eu passo na frente da tua casa devagar esperando que o acaso te jogue do portão pra fora só pra gente se esbarrar. Que eu já mentalizei o nosso encontro umas cem vezes e treino duas vezes por semana o discurso que eu vou proclamar quando encontrar teu rosto na frente do meu outra vez. E faço isso pra tentar não deixar o “eu ainda te amo” vir antes do “Oi, tudo bem?”.

Essas são as minhas novidades, aquelas que você não sabe. As novidades que as redes sociais não esfregam nos seus olhos todas tratadas com doses cavalares de filtro. Filtros pra tirar o olho fundo de quem não dorme com saudade ou que colore um lugar preto e branco pra vender felicidade. As novidades que os nossos amigos não sabem ou evitam nos contar.

Ah, é claro. Eu ainda te amo, só que isso não é novidade pelo simples fato de que em nenhum momento eu deixei de te amar. Eu só te deixei ir.

Se cuida.

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