A GENTE QUEBRA

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Leia ouvindo: Donavon Frankenreiter – Dancy like nobody’s watching

Eu deveria ter uns oito anos de idade, não me lembro ao certo, quando fui apresentada ao que eu chamo de “teoria da elasticidade”. Era uma aula de ballet clássico, meio lúdica, meio técnica. Eu sempre fui uma das mais altas da turma, e com essa idade já alcançava a parte mais alta da barra.

Em um dia qualquer, mesmo insegura, decidi que era hora de me desafiar e fazer a sequência na parte mais alta. Minha professora não questionou o quão preparada eu estava, talvez por ver que “eu dava conta”. Eu detestava barra, mas sabia que a evolução no ballet clássico começava ali.

Segui na minha escolha. Minha panturilha queimava enquanto uma das minhas pernas deslizava pela barra. Senti minha virilha como nunca antes. A cada repetição deslizava um pouco mais, até onde a dor parecia ser suportável. Nesse teste de limites, minha professora decidiu participar. Forçou meu quadril para dar mais amplitude no exercício, meu corpo respondeu bem, mas no fim da aula eu chorei no banheiro.

“Segura a dor, delicadeza no braço. Fica”. A eternidade das sequências na barra me matavam. “Dor é evolução”. Anos depois, quando sai da meia ponta para ponta, tudo piorou, inclusive as dores. Meu pé sangrava, o tornozelo inchava com as torções, eu caia no meio da sequência, a perna tremia, tinha que começar a sequência de novo, enfim, o corpo parecia não encaixar mais. Dores. Muitas dores. A frustração de não conseguir um solo na apresentação. “Você precisa se esforçar mais”.

Nunca parecia ser suficiente. O esforço ou a dor.

Até que um dia eu quebrei. Não aguentava mais sentir dor todos os dias. O meu descanso ativo era no esporte. Eu saia da aula de Ballet e ia para o clube, terminar o dia em um esporte qualquer. Era um alívio sentir dor depois de uma aula de basquete, por exemplo. 

O que chamo de “teoria da elasticidade” veio muito tempo depois, já adulta, em uma pauta de trabalho. Na academia, passei por uma sala de ballet vazia e pedi para entrar. Prontamente tirei meu tênis. Era eu e barra novamente. Revivi uma breve sequência de deliciosas, porém dolorosas, lembranças.

fotografia: Juliana Manzato

Não somos infinitamente elásticos. A gente quebra. A gente cria limites para superá-los depois. Aprendemos a suportar dor, a aceitar situações, a lidar com o tóxico, aprendemos a resistir sem reagir.

O ballet me tornou uma pessoa muito mais resistente, mas o ballet também me mostrou que na “teoria da elasticidade” a gente estica demais, mas quando a gente solta e deixa, a vulnerabilidade sobe no palco e te apresenta a imperfeição do movimento.

No palco a apresentação flui, apesar da luz te cegar. Dentro da sapatilha, o dedo sangra, a bolha estoura, o calo dói.

A gente não precisa superar limites, suportar dores, aceitar algo. A gente pode descer do palco, arrumar as coisas, apagar a luz e fechar a porta.

No final do dia, a gente percebe que não adianta ser perfeito, quiçá, resistir ou reagir. Só precisa ir embora.

 

Juliana Manzato
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