A GLAMOURIZAÇÃO DOS PROBLEMAS

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Leia ouvindo: Cazuza – O tempo não pára

A sensação de pertencimento nos leva aos extremos. Quando aderimos um comportamento de manada, pelo prazer da sensação de pertencimento, damos muitas vezes vozes a algozes e cultuamos hábitos não tão saudáveis para nossa própria vida.

Lembra daquele conselho de vó: “diga-me com quem andas e lhe direi quem és!”? Isso é – resumidamente – o comportamento de manada.

Nos vemos “obrigados” a seguir a opinião de determinado grupo na tentativa de proteção e necessidade de encaixe.

Essa necessidade está presente nas filas que as casas noturnas geram em frente de seus estabelecimentos, assim como em restaurantes, por exemplo. Isso acaba por ser uma técnica de neuromarketing, que usa a base da neurociência como marketing para influenciar nossos hábitos.

Ah, a glamourização dos problemas atuais! O exemplo pode até parecer meio maluco, mas um nome destaca nas redes sociais, e se tornou para muitos a filosofia de vida, uma meta a ser alcançada.

Estamos falando do Fábio Assumpção, o ator que tem problemas de dependência química e álcool. Não há nada para ser glamourizado em um ser humano que tem tantos sufixos ismo em seu currículo. (Dica de português: o -ismo remete a doença baseada em comportamento como bruxismo, alcoolismo, tabagismo e até mesmo movimentos ideológicos como Fordismo, Mercantilismo, Cubismo e Romantismo).

Cotidiano dela

O mundo tornou-se permissivo demais quando cultua ou agride qualquer ser humano por conta de suas falhas. Fábio Assumpção virou sinônimo de divertimento. Perder o controle num evento ou realizar escolhas duvidosas, não se torna um problema. Não se você utilizar a imagem do ator para amenizar o mesmo, e fazer disso divertimento. Seu nome virou até música para cultuar a mesma variável.

Provavelmente qualquer outro artista teria postura mais reativa, apelando para processos e entrando na justiça. Fábio foi além. É necessário aplausos, não para o ator, mas para o ser humano.

Ao invés de censurar, Fábio utilizou o efeito “manada” a seu favor. Apesar de uma grande parte da “manada” não perceber, Fabio deixou o artista de lado e mostrou seu lado mais humano, sua ferida mais exposta, mostrando que a situação não é fácil, e que existem barreiras para ele e outras pessoas que compartilham da mesma doença.

Ainda sobre o efeito manada, é inevitável não citar o caso do Nego do Borel. Precisamos sim, enquanto manada, trabalhar nossa empatia com casos de discriminação com identidade de gênero. Nego do Borel fez o que muitos de nós sempre fazemos, usamos a internet de forma indiscriminada achando que é terra de ninguém.

É importante lembrar que a internet tem gerência sim! Ao fazer um comentário transfóbico, Nego não levou em consideração a empatia com o outro, a vida do outro, os desafios do outro. A gente faz isso sempre – e não adianta dizer que não.

A grande diferença é que existe gente que não esconde seus monstros, outros ainda tentam controla-ló, mas uma minoria realmente controla. Uma minoria é realmente empática.

O fato é que a “manada” glamourizou esse problema do Nego que acabou sendo vítima da falta de empatia. Sendo outro ser humano atingido com fúria, por pessoas que não mostraram outro viés da situação. Sentamos em cima do nosso egocentrismo, apontamos o dedo e vaiamos!

E assim, o colega ali do lado também vaiou! Não pensou nos motivos. Não pensou na instrução, não pensou em nada. Aí, o outro colega também vaiou, e o outro, e o outro, e o problema cresceu e ninguém educou ninguém, ninguém foi empático com ninguém, apenas disseminamos o ódio.

Assim tive necessidade de refletir sobre os dois casos. O erro de um foi enaltecido, outro execrado. Algum aprendizado tirado? Que país é esse em quem vivemos? Por qual motivo elegemos heróis e vilões por meio de seus erros? Por que estamos glamourizando problemas ao invés de resolvê-los – muitas vezes – dentro de nós mesmos?

O nosso medo e falta de empatia é tão grande que tenho pensando na necessidade da terapia sair do divã e se tornar coletiva.

Luiza Pellicani

Jornalista que perdeu o filtro quando nasceu. Fala e faz o que dá na cabeça. É apaixonada por jornalismo, escrita, música, vida e por pessoas. Balada é comigo. Cinema é comigo. Netflix é comigo. Família é comigo. Nos amores, aproveite, as coisas podem mudar. E não esqueça, máxima do 8 ou 80 não funciona comigo.
Luiza Pellicani

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