A minha caretice

Leia ouvindo: The Temper Trap – Sweet Disposition

Percebo que você anda assustado com minhas mudanças repentinas de humor e ansiedades que não costumava ter. Eu te entendo, também me assustei. Não porque essas coisas simplesmente surgiram, do dia para a noite, mas porque não estive sendo completamente honesta contigo. E comigo. Optei por demonstrar uma versão mais descolada de mim mesma, mas preciso, de uma vez por todas, que conheça toda a caretice sobre mim.

Meu eu mais transparente é uma mistura de carência e independência. Gosto de elogio, carinho e atenção em doses que beiram o exagero, mas amo meu direito de ir e vir e detesto pensar em prisões – concretas e abstratas. É que eu amo o mundo, ainda que não conheça uma porcentagem significativa dele, e desejo mergulhar em aventuras quando ouvi-las me chamarem. Se você pode ir comigo? Claro! Traga os cafunés que só você sabe me fazer.

Nas minhas percepções sobre o amor, considero o entrelaçar de mãos o momento da mais pura troca de sentimentos. Não há abraços, beijos e transas que, para mim, rompam de forma mais rasgada com o tabu da intimidade do que a forma como seguramos a mão um do outro. Não consigo me recordar de todas as pessoas que conheci na vida, mas posso lembrar de todas as vezes que alguém especial segurou minha mão. Andar de mãos dadas sempre será, nos meus ideais, a forma mais livre e leve de declarar o conforto de um amor. Não precisa se algemar a mim, mas agarre seus dedos nos meus quando perceber que fui tomada por qualquer tipo de angústia. O alívio é imediato.

[ Imagem: reprodução ] 

Eu choro. Bastante e com facilidade. Já chorei no banho, na cama, no filme emocionante no cinema, no meio da aula de spinning da academia, assistindo vídeo fofo clandestinamente no trabalho e quando tomei aquele baita esporro do chefe porque me viu assistindo vídeo, também. Não preciso de desculpas como “estou de TPM” ou “meu cachorro me mordeu” pra assumir meu choro, as lágrimas correm sem eu sentir vergonha. Aquele dia em que chorei na sua frente não devia ter um peso pra você. Teve a mesma melodia do choro sozinha, com minha mãe ou minhas amigas.

Descobri, há pouco tempo, que o amor é cafona, e que junto com ele, eu também sou. Eu gosto de flores, gosto mesmo. Gosto de caixas de bombom em formato de coração, porta-retratos com foto nossa, pequenas declarações por mensagem. Mas não gosto de apelidos, e tenho dificuldade em sequer pronunciá-los. Talvez passe o resto da vida te chamando pelo seu nome inteiro, sem abreviações. Não sei explicar, eu travo. Também travo para dizer “eu te amo” em voz alta, principalmente em público. Mas por favor, não se deixe enganar. Posso sussurrar essa combinação no seu ouvido quantas vezes você me pedir. E quando não me pedir também.

Já escolhi o nome da minha filha, embora tenha preferência e uma quase certeza de que serei mãe de menino. Mas não me imagino mãe. Escolhi chamar minha filha de Olívia – e pode ser que você odeie esse nome – só porque sou mulher e sofro aquelas pressões normais da sociedade. Aliás, também não me imagino de noiva. E nem imagino um casamento. Quantifico viagens, diversas. E, veja só, adoraria constar um beijo de cinema ao pé da Torre Eiffel na minha lista de metas atingidas em vida.

Acho que você não poderia imaginar que a garota da risada alta, dos pés descalços, do porre de tequila e do pijaminha do Mickey seria uma união de clichês tão batidos. Mas eis-me aqui, na maior das verdades sobre mim. Ainda há espaço para a menina que ama tatuagens, curte um rock n’ roll, fala palavrões e carece de delicadeza e modos de mocinha. Te peço que volte a ficar tranquilo. Garanto que o que mais vai amar em mim é o equilíbrio entre minha caretice e minha molecagem.

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Bianca Carvalho
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Bianca Carvalho

Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.

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