A minha fruta mordida!

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Leia ouvindo: Eden Fox – Beyond

Era como um ritual de passagem! Esses muitos anos escolhendo a solteirice me fizeram desenvolver técnicas eficazes contra os corações levianos. Bastava a terceira mancada e a exclusão da vida era certa: um bloqueio em todas as redes sociais, um “delete” na conversa pelo WhatsApp, e principalmente, a sensação de vida que segue. No começo, parecia loucura. Eu praticava a arte de apagar as pessoas da minha vida com certo receio do monstro que eu viria a me tornar. Mas com a prática, veio a perfeição e o incômodo deu lugar a uma tranquilidade pelo território preservado! Eu havia cansado de sofrer, era tempo de cuidar de mim.

Na teoria – e por um tempo, até mesmo na prática – essa arte funcionou bem. Eu não estava de braços cruzados e cara amarrada expelindo todo e qualquer ser humano que se aproximasse! Pelo contrário. Eu estava era de sorriso muito aberto, usando do melhor perfume, crente de que a borboleta certa dessa vez seria fácil fácil de identificar. Eu fiz das relações humanas uma equação exata! Logo eu, de humanas! Logo eu, zero por cento lógica! Logo eu…

Até que, num belo dia, fui pega numa curva perigosa. Era um olhar mais intenso do que o usual, me conheceu em meio a uma TPM feroz, ouviu de mim que eu não precisava de alguém pra me pagar uma bebida! Pedi que fosse embora. Ele não foi. Sentou ao meu lado contrariando as estatísticas, e me fez sorrir. Contou sobre uma viagem para a Indonésia, disse sobre os dias que amanheciam quentes e dormiam gelados demais. Mostrou um senso de humor ácido no ponto certo. Riu de mim quando contei, observada muito atentamente por seus olhos, sobre uma situação embaraçosa no casamento de uma amiga. Falou sobre o doce do meu perfume, pediu pra experimentar a cerveja artesanal de tangerina que eu bebia. Odiou!

Três meses depois, ele dormia na minha cama. Eu não sabia dizer ao certo como deixara aquela situação sem futuro evoluir para essa bagunça sentimental, mas ali, deitado em meu berço esplêndido como se dormisse em solo sagrado, ele parecia tão exato pra mim. Ao que parecia, o meu tão infalível esquema de segurança havia sido rompido. Eu sabia que ele não era a borboleta perfeita, nem de longe! O cara, meus amigos, era um maluco. Sagitariano da gema, vivia a vida com um toque de liberdade e leveza bonito de se ver, mas um tanto perigoso pra vida a dois. Um dia antes, ele deu mais uma mancada. Pelas minhas contas, a 28ª. Chegou em casa três horas mais tarde do que prometeu, bebeu quatro cervejas a mais do que me falou. Disse que eu era a sua menina, que havia esquecido do jantar com o pessoal do meu trabalho, mas que não o fez por mal. Mostrou os últimos e-mails, o cliente cobrando o projeto pronto e as mil desculpas do fornecedor que perdera o prazo.

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[ Imagem: reprodução / Pinterest: Cotidiano Dela ]

Fizemos amor, embriagados de paixão, ódio, saliva e cerveja. Ele em sua imensa inconstância, eu com meu peito completamente desprotegido. O que me fazia seguir não era o medo da solidão, tampouco o bom sexo que vinha no pacote. Eu já havia apagado tantas e tantas vezes o seu número do meu celular, e talvez por me ter em seu radar, ele sempre me encontrava. Segurava as minhas mãos, me pedia paciência e outra chance. Não me dizia que seria diferente, mas jurava me amar do melhor jeito que podia. Eu não sei ao certo o quanto eu acreditava nisso, mas tão cansada de promessas vazias, ele era o melhor aconchego pra minha tormenta. Eu não sabia como resistir a tanto amor, mesmo que não chamássemos disso a nossa grande aventura. O que eu sabia era que, com ele, o vento soprava diferente.

Acordei no meio da noite, sob seus olhos cuidadosos me admirando. Ele sorria enquanto fazia um carinho calmo nos meus cabelos. Sussurrou que não queria me acordar, mas que estava ali agradecendo a Deus por ter tanta sorte, a sorte de um amor tranquilo como o que cantou Cazuza. Sorrimos! Em mim, ficava a certeza mais que absoluta de que em nada – mas em nada mesmo – o nosso amor era tranquilo, mas junto a isso, vinha a paz de um coração que estava aprendendo a amar de verdade. Intenso, um amor vivido nos detalhes, apaixonado por defeitos que antes condenávamos. E ele, mesmo em meio a tantos poréns, me cabia na medida. Quanto tempo aquilo duraria? Ora, senhores… isso era mesmo impossível prever. Mas naquela noite eu não queria saber. Aconcheguei-me em seus braços e respondi: ‘sim, meu amor…com sabor de fruta mordida’ e entre laços, adormecemos para um dia que nasceria mesmo muito feliz!

Mayra Peretto

Uma mulher de cabeça e coração sempre cheios! Capricorniana da gema, produtora de eventos por profissão e escritora pra vida. Apaixonada pelo 'hoje', escreve sobre o que pulsa nas veias e escorre pelos olhos. Seus dias são feitos de poesias, boas músicas e muita luta!"
Mayra Peretto

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