A MULHER INVISÍVEL

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Leia ouvindo: Icarus, AURORA, Lane 8 – Home

É o meu auge. O espelho é meu melhor amigo, estou mais bonita do que nunca. Decidida e muito bem resolvida – obrigada! – em diversas questões que deixam uma boa parte das mulheres da minha idade de cabelo em pé.

A leveza de levar tudo com muito bom humor é rotina, assim como a gratidão diária. A maternidade agora é diferente, Fernanda tem 30 anos, Antônio, 17. É uma nova fase, novas preocupações. Minha carreira pede reinvenção o tempo todo – e lá estou eu disponível para mais isso. São anos no jornalismo e, modéstia à parte, com um trabalho bem consolidado. E mesmo com tantos atributos, dignos do rótulo “pessoa interessante” que a sociedade impõe, nem tudo parece bom. Longe de mim reclamar da vida que levo, mas descobri uma sensação nova, a de ser invisível.

Como assim invisível?

É que tenho 52 anos e mesmo com todos os atributos de uma pessoa “interessante”, os 50 parecem me abraçar com uma capa de invisibilidade.

Com o passar do tempo ouvi mais relatos sobre essa sensação e, pasmem, não é de hoje que mulheres depois dos 50 “reclamam” desse “repentino desaparecimento” na sociedade – existem até estudos que apontam isso, como um de 2014, conduzido pela especialista em menopausa Eileen Durward para o site A.Vogel. Nele, grande parte das 2000 mulheres envolvidas na pesquisa, revelou não receber a devida atenção masculina após os 50 – muitas, inclusive, disseram se sentir “ignoradas”. A antropóloga brasileira Mirian Goldenberg também têm vários trabalhos que indicam essa percepção. Em um deles, ao entrevistar 1700 mulheres de 40 a 90 anos de idade, ouviu direto a queixa de que elas se sentiam “transparentes”, não desejadas pelos homens, como se tivessem deixado de ser mulheres.

Depois dos 50, as mulheres não são velhas, mas também não são jovens. O que somos, então? A data que consta na carteira de identidade pode nos definir? Bom, mas isso é assunto para uma outra conversa… Sei que com 50+, trago na mala a maturidade e a segurança das cinco décadas de experiências que me acompanham, porém, minha pele já não possui o frescor dos 20 ou 30 anos.

Fotografia: arquivo pessoal

É uma fase em que até podem te admirar ou desejar, mas assumir uma mulher de 50+ parece difícil demais, sabe? É como andar na rua de mãos dadas, não que isso seja uma condição para ser feliz – mas entre tantas outras coisas que desejo fazer, andar de mãos dadas e ter alguém ao meu lado é uma delas.

Aos 50+ dá para se reinventar. Dá para ter um amor para somar – com carinho, tesão, confiança, respeito, admiração e individualidade. Dá para ter tudo isso dentro de uma relação que realmente acrescente, porque como disse lá no primeiro parágrafo, no auge, tudo que é bom de verdade é leve. E isso se aplica a relações afetivas.

Sou uma mulher muito básica. E dediquei cuidados básicos à beleza e ao corpo ao longo da vida – talvez usar filtro solar tenha sido o mais importante. E só conheci a verdadeira paixão pela prática esportiva às vésperas dos 40 anos. Isso fez com que a minha relação com as pessoas mudasse e passei então a valorizar ainda mais quem, além de cuidar de si, também cuida do outro. Acredito que essa valorização própria foi meu verdadeiro colágeno – o que vai na contramão dos que dizem que correr envelhece.

Aos 52 anos, estou na minha melhor forma.

Em todos os sentidos. Depois de três casamentos, uma coleção de paixões e desilusões, e anos de terapia, sei o que quero – e o principal, o que não quero. São incontáveis altos e baixos, mas nunca busquei em um homem a solução para meus problemas, e acho que nenhuma mulher precisa usá-los como muleta emocional.

Acredito que homens e mulheres podem voar juntos, servindo de apoio um ao outro em momentos de felicidade e necessidade.

Cá entre nós? Os 50 não são tão diferentes dos 30 ou dos 20. Os relacionamentos e falas se repetem. Os homens continuam assustados com mulheres de personalidade – e vida – própria. Não é ser mulher demais, mas incontáveis vezes é encontrar homens assustados demais com uma independência que deveria causar admiração. Não é ser mais, é a tal da igualdade – e talvez por isso, a invisibilidade.

Longe de mim querer advogar em causa própria, mas gostaria de mostrar uma outra perspectiva de como valorizar os anos que passam. Existe muita vida em uma mulher de 50. A novidade brilha os olhos. São planos, papos, panos de uma longa manga, histórias, risadas e prazer. Compartilhar e receber. Medos também, quem não tem?

Aos 50 a gente não tem medo de perguntar: “vamos?”. Aos 50, a gente não tem medo de responder: vamos!

A cada 15 dias estarei por aqui, compartilhando as dores e as delícias da vida depois dos 50. Vamos juntas? 

Yara Achôa

Simples, tranquila e movida a brilho nos olhos. Seu combustível de vida é a paixão: por esporte, filhos, bichos, música, livros, seus textos, chocolate, natureza... E com fôlego de maratonista para correr atrás de seus sonhos.

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