A MULHER QUE EU ERA ONTEM

Não, não me inscrevi para participar de uma pandemia em 2020. Os planos eram outros.

0

Leia ouvindo: Human (feat. Jon Cozart) – Dodie Clark

A cada momento da vida há uma aventura para a qual não nos inscrevemos. Não, não me inscrevi para participar de uma pandemia em 2020. Os planos eram outros.

O plano era caminhar o mais livre possível, tentar o livramento das amarras impostas no passado pela sociedade e tentar me desvencilhar da coleira colocada em mim mesma por motivos até então desconhecidos.

O que parecia interminável, agora são os caminhares da alma. O acordar sem pressa para enfrentar o trânsito, o acordar com a necessidade do próprio corpo e não por conta do despertador.

A mulher do ontem não tinha tempo para ela mesma. De tocar as flores de sua janela e sentir sua energia.
Agora percebe que a maquilagem e o salto alto não eram necessidades tão urgentes, mas como é bom se sentir bela. E como é bom estar sem ela, como é bom ser bela sem ela.

Do ontem para o hoje, percebeu o quanto fazia pelo seu próprio prazer e o quanto não o fazer também é para o seu próprio prazer.

Já não há sapatos para seus próprios pés. Já não há amores suficientes. Já não há métricas. Já não há rancores. Já não há felicidade. Já não há metas impossíveis.

A mulher que se tornou agora não quer imediatismo, mas quer o sorriso aberto da forma mais lenta possível. Ela está em câmera lenta, sentindo todos os momentos em suas veias, em seus batimento cardíacos.

Ela analisa tudo mais friamente. Ela brilha sempre precisar que a avisem que ela está brilhando. A de hoje já não é a mesma de ontem, e se tudo der certo, nem será a mesma de amanhã.

Luiza Pellicani
Últimos posts por Luiza Pellicani (exibir todos)

You might also like More from author

Leave A Reply

Your email address will not be published.