A necessidade de transmutar

Leia ouvindo: EXES – twentythousand

Entrei em um jardim com poucas flores, havia frutos, havia sementes, mas com o tempo nada daquela promessa de uma floresta cheia de sonhos havia sido cumprida. Eu tinha um prazo, longo até, para que tudo se transformasse e não gastasse meus sonhos em planos perdidos.

Um ano, disse a mim mesma.

Logo eu, que não consigo encerrar ciclos com tanta facilidade. Que sempre deixo a porta entreaberta para coisas do passado. Me vi obrigada a cancelar planos sem volta. Dei meu sangue por aquele jardim. Reguei sementes para que elas floreassem, mas me vi sozinha e perdida em um caminho destinado para duas pessoas.

Vi meu ombro amigo e pilar de que tudo daria certo pendurado em meu pescoço, deslocado dentro do meu tempo. A carreguei como uma mãe com um filho. Tentando entender seu tempo. Tentando entender seus motivos.

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[ Imagem: reprodução / Pinterest: Cotidiano Dela ]

O peso cansou os ombros, marcou a pele e fez com que as lágrimas fossem pesadas demais para lavar a face. Aquele choro diário que temos guardado no peito escondido e que as lágrimas simplesmente não saem. Até que veio um suspiro novo, não de outro alguém, mas do brilho próprio que nem sabia ter. Fui recuperando as forças. Criando novos sonhos e assumindo novas plataformas.

Nem sempre é fácil transmutar. Nem sempre é fácil escolher. Podemos não ter mãos e braços suficientes para carregar flores, frutas e companhias. Errei sozinha no embaraço da mente de pensar que poderia estar prejudicando quem sempre esteve ao meu lado.

Refleti, refleti e refleti com uma força que chegava a arrebatar o coração. Mas infelizmente aquele ciclo bonito que havíamos iniciado, estava agora atrapalhando. Estava perdida, metendo os pés pelas mãos em planos só meus. Por isso era tão necessário transmutar e alterar. Não o fiz para prejudicar ninguém. O fiz porque era hora de um término onde a dor seria menos aguda e os prejuízos emocionais menos dilaceradores.

Em uma conversa ríspida tudo se encerrou, sem sorriso, sem pranto, só uma outra pessoa no outro canto da sala com tom de voz que mais parecia faca. O posicionamento doeu, ainda dói, mas há uma necessidade de transmutar. Essa passagem será um amadurecimento a duras penas. De mim será necessário mais profissionalismo, guardar um pouco a loucura e transparecer mais assertiva, mais centrada, mais competente. Para isso, sei com quem posso contar. Com os amigos que conquistei no caminho coletando novas sementes, com antigos amigos, e sei que quando precisar de ajuda no meu cotidiano vou poder contar com o cotidiano dela.

Luiza Pellicani
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Luiza Pellicani

Jornalista que perdeu o filtro quando nasceu. Fala e faz o que dá na cabeça. É apaixonada por jornalismo, escrita, música, vida e por pessoas. Balada é comigo. Cinema é comigo. Netflix é comigo. Família é comigo. Nos amores, aproveite, as coisas podem mudar. E não esqueça, máxima do 8 ou 80 não funciona comigo.

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