À prestação

Eu estava aflita. Muito aflita. As mãos geladas, agora de nervoso, e não de frio. As pernas sacudiam de ansiedade. Me perguntava a cada esquina virada, por que estava fazendo isso? Não deu tempo de sair correndo. Chegamos rápido. A sala de espera com algumas cadeiras e nenhuma revista parecia mais uma antessala da tortura. Toda e qualquer desgraça passava pela minha cabeça naquele momento. Dessa vez, queria que meu nome demorasse muito a ser anunciado. Mas não foi. Pontualidade aqui funciona. Entrei, tirei o casaco, deitei na cadeira. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Mas o homem alto e magro nem me deu tempo de sofrer. Foi logo me dando as agulhadas que me anestesiaram.
Depois das incomodas pontadas, ele saiu. Fiquei ali. Olhei pro meu marido assustada. Ele sorriu e balançou a cabeça mostrando que estava tudo bem. Pelo menos para ele. O homem grande voltou. Sentou ao meu lado e disse: vamos começar. Gentilmente, pediu que meu marido saísse da sala. Olhei assustada de novo. Ele fez nosso sinal e saiu. Queria sair com ele, mas não deu.
Senti medo. Abri a boca e fechei os olhos. E, após  apreensivos dez minutos, o homem alto e magro disse: terminamos. Fiquei em choque. Paralisada. Como assim já tinha acabado? E todo o drama que passei antes? E todo aquele frio na barriga de medo que tinha sentido? E todo sofrimento que imaginei passar? Tudo havia sido em vão? Sim. Os dois dentes do juízo que ainda me restavam já estavam na bancada do dentista. Saí da sala com duas bochechas que não me pertenciam. Entrei no carro de volta ainda anestesiada.
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Quando cheguei em casa, não conseguia acreditar que, aquilo que me atormentava tanto, havia sido resolvido em apenas dez indolores minutos. Tempestade em copo d´água, prazer. Exagerada, eu sei. Tanto para o bem, como para o mal. Sofro em prestações. Prestações adiantadas. Crio meus fantasmas, minhas expectativas, minhas dores e desamores. Sofro com o que ainda não aconteceu, em doses homeopáticas. Choro as lágrimas que ainda não caíram e sorrio pelo sorriso que ainda não veio. Chuto dizer que é mais do que ansiedade. É uma mistura de sentimentos e sensações que me tomam sempre quando algo novo está por vir.
Era assim na véspera do primeiro dia de aula, foi assim em todos os primeiros dias de emprego novo. Aconteceu assim com o primeiro amor platônico. Simplesmente crio minha história, meu drama ou meu conto de fadas. Sou assim. E sendo assim, me frustro muitas vezes. Tanto para dor, quanto para o amor.
Tirar os dentes do siso, tirar os dentes do siso em alemão. Dessa vez, esse foi meu tormento. Outros certamente virão. Aqui ou ali. Acho que com o tempo, a maturidade e com os milhões de acontecimentos que estão por acontecer, talvez eu me controle mais. Talvez crie menos fantasmas. Talvez faça chuvisco e não tempestade. Talvez sinta menos as dores. Talvez as sinta somente quando de fato aparecerem. Talvez.
PS: E, para constar, não sai de lá com uma lista de antibióticos, anti-inflamatórios ou anti qualquer coisa. Nada. Só uma receitinha em caso de dor. Só.
Assinatura Lívia
Juliana Manzato
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Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.

4 comentários em “À prestação

  1. Adorei o texto.
    Leitura suave e agradável. Até animei pra tirar os meus sisos semana que vem. Rsrsrs

    1. Oi Marina,

      Que legal saber que gostou 😉

      Espero que tenha ocorrido tudo bem na sua cirurgia do Ciso!

      Beijos

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