A PRIMEIRA SEGUNDA-FEIRA

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Leia ouvindo: Beyoncé – Flawless

Não é que eu fosse “Team I Hate Segundas-Feiras”, é que eu era “Team Marcos Significativos, na vida” e eu realmente escolhi à dedo o que fazer com cada segundo daquela segunda-feria que seria a minha primeira segunda-feira oficialmente como uma vabagun(…) “Pessoa em Ano Sabático”.

Lembro de ter uma crítica às mulheres que eu só lembrava de fazê-la de 6 em 6 meses, mas ela existia… Era o tal de passar horas no salão de beleza sem produzir absolutamente nada. Elas passavam horas falando sobre como disfarçavam os preços exorbitantes dos seus loiros perfeitos dos maridos, sobre as babás, filhos, cachorros e vizinhos… Como eu sabia? Eu também estava lá! Eu também passava de 5h a 8h (sim, acredite!) sentada em uma cadeira de cabeleireiro em busca do meu loiro perfeito.

Eu chegava no salão e meu cabeleireiro já sabia: “Aqui tem uma tomada para você”; eu ligava o meu computador, celularzinho na mão para atender aos meus clientes e lá passava minhas longas horas… Chegavam cafezinhos, chás, algumas águas; quando o trabalho estava um pouco mais calmo, dava tempo de eu pedir algo para comer entre uma ligação e outra, mas geralmente não.

Lembro de ouvir o bate-papo feminino por alí e pensar: “Vá trabalhar!” – meu feminismo era um tanto quanto seletivo, nessa época! – Mas logo o meu telefone tocava e eu perdia o fim das histórias ou então conseguia me concentrar em algum projeto no computador, ainda que me restasse tempo para estar indignada com aquelas pessoas que escolheram ser dependentes financeiramente e precisarem mentir preços de shampoos; algo que eu sempre me orgulhei muitíssimo por gastar fortunas e já alertar meu namorado, quando via as etiquetas no banheiro e assustava: “O dinheiro é meu e eu faço com ele o que eu quiser!” E, claro, a indignação estava também na produção delas… “Como pode passar uma vida sem produzir nada?” pensava eu… Quanta ingenuidade! (Pra quem está me achando uma fake feminista, quero dizer que já revi todos esses conceitos, mas estou contando a minha história pra vocês, né? Tem descontrução aí).

Fotografia: Marilia Archangelo

Enfim… Lembro de ter escolhido um salão de beleza pra passar a minha segunda-feira: “Eu quero pintar o meu cabelo na minha primeira segunda-feira, sem trabalhar!”

Era um salão bem caro e com os loiros mais perfeitos que eu já tinha visto, na minha vida; salão de esposas de homens famosos, cantores sertanejos e por aí vai… É esse!

Mas, dessa vez, eu não tinha o meu computador (não ter clientes me ligando foi uma glória; eu amei!)… Baita tempo pra pensar na vida, hein?! Foram 8h, naquele dia!

Levei a minha irmã comigo; eu realmente não sabia o que fazer por 8h seguidas, em um salão, sem ter que trabalhar… Mas ela levou o computador; puts, eu não podia atrapalhar… Eu ainda me lembrava o que era ter responsabilidades e entregas e, mais, um chefe!

Uma horinha, enquanto eu fazia as unhas, dava pra ir… E era um momento que eu amava viver. Lembro de ter feito as minhas unhas sozinha, durante a faculdade e me prometer: “No primeiro dia em que eu tiver um salário, eu nunca mais farei as minhas unhas sozinha; esse será um luxo que eu me presentearei semanalmente; afinal, eu trabalharei, eu merecerei!”

E assim foram por bons e velhos anos… Haviam dias em que eu só conseguia falar: “Oi, Si”, “Tchau, Si, Obrigada”, para a minha manicure, pois tinha passado todo o tempo ao celular ou fingindo que prestava atenção ao que ela me dizia, enquanto pedia pra ela emprestar um pouco a minha mão pra eu digitar no telefone o número de algum cliente. Alguns raros dias em que eu estava tão estressada, no trabalho, que eu me lembrava da minha promessa de “luxo merecedor” da faculdade e ficava off do mundo, nessa uma hora; mas eram dias em que eu realmente sequer conseguia prestar atenção ao que estava acontecendo ao meu redor, não me lembro dos bate-papos, pois eram exceções mesmo em dias em que eu ia surtar… E tinham os sábados; às vezes eu conseguia marcar de sábado, mas isso era raro, pois eu sempre estava ocupada demais pra pensar, no meio da semana que precisava agendar e a Si já me mandava mensagem: “Você vem quinta-feira, às 18h!”, toda semana… Os sábados eram legais, ela tinha duas clientes muito loucas e uma psicologa, que era uma princesa fofa e calma… Gostava dos sábados, pra ouvir as histórias de uma menina jovem que tinha um namorado louco de ciúmes e que montou uma academia em casa, só pra ela não ir malhar fora e que ela ia comer pastel, depois da unha, porque ela era livre e fazia o que bem entendia da vida dela!

Mas vamos voltar à minha primeira segunda-feira no stress, com minhas 8h de loiro perfeito: Tive tempo até de levar uma marmitinha totalmente equilibrada, que foi feita pela minha nutricionista. Esquentei, comi, li revistas, zerei o Instagram algumas vezes (nessa época, ele ainda era por ordem cronológica… Saudade!)… Sei lá tudo o que fiz, naquele dia; acho até que dormi, por um tempo, no lavatório da hidratação. Ah, claro… Ouvi começo, meio e fim de várias histórias “femininas”, era, de fato, um mundo bem diferente do que o que eu estava acostumada, né?

Foi um bom dia, gostei!

Estava assustada, né? Agora, eu era uma daquelas mulheres “não produtivas”, que eu sempre critiquei… Mas era um caminho sem volta.

Primeiro, aceitei o risco de descobrir se eu era vagabunda, ou não e, agora, se eu era fútil, ou não e toca o barco, vamos seguir que agora não dá pra voltar… Que tipo de mulher será que eu sou?

Marília Archangelo

Apaixonada por viajar e pela natureza, trago na mala as experiências que me fazem ser quem eu sou e o entusiasmo, quase que um desassossego pelos olhares que ainda me transformarão em tudo o que eu vim para ser. Qual é o próximo destino?

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