A VIDA DEPOIS DOS 50 | NOSSA DIFERENÇA DE IDADE

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Leia ouvindo: Biquini Cavadão – Nossa diferença de idade

Escutei essa música do Biquíni Cavadão em meados de 2017. O Bruno Gouveia, vocalista e compositor, inspirou-se no relacionamento dele com a mulher, 13 anos mais nova.

“Meu primeiro beijo aconteceu
Bem no ano em que você nasceu
Difícil imaginar
Que você deu o seu primeiro passo
E eu já dirigia o meu carro

Enquanto você perguntava aos pais de onde é que vinham os bebês
Eu vivi minha primeira vez
Você foi pra escola aprender a ler, fazer as contas e escrever
E eu já trabalhava pra viver”

A letra do Biquíni se encaixou perfeitamente para mim naquele momento. Um ano após minha separação, finalmente estava me abrindo para conhecer gente nova. E essa gente nova também era alguns bons anos mais nova que eu – para ser exata, 14. Ao mesmo tempo em que envaidece, que faz bem para o ego, dá um medinho. Por que? É só voltar à canção: “meu primeiro beijo aconteceu bem no ano em que você nasceu”; “enquanto você perguntava aos pais de onde é que vinham os bebês, eu vivi minha primeira vez”; “você foi pra escola aprender a ler, fazer as contas e escrever, e eu já trabalhava pra viver”.

Assusta um pouco. Primeiro porque nossa sociedade é patriarcal – termo que tem origem na palavra grega pater (pai de família) – e o “natural” é pensar sempre em um relacionamento com um homem mais velho, pouco ou muito mais velho não importa, mas que represente a figura do “pai”, a segurança. Depois, se começarmos a fazer as contas – e é inevitável fazer – aí é que complica de vez: imagine você com 20, e seu crush com 6; você com 30, ele com 16. Sem chances. Se a gente fizer um exercício de futuro e pensar no declínio físico, na beleza, a perspectiva parece também não ser das melhores. Quando eu tiver 60, ele terá 46; eu 70, ele 56…

Ainda nos dias de hoje os julgamentos e as cobranças são cruéis – e o alvo principal somos nós, mulheres. Um homem grisalho e com rugas costuma ser chamado de “charmoso”; uma mulher grisalha e com rugas, de “relaxada e velha”. Um homem com uma namorada 25 anos mais nova é uma situação normal. Uma mulher com um namorado 25 anos mais novo vira notícia de jornal (que o digam a jornalista Fátima Bernardes e a atriz Claudia Ohana).

Fotografia: Cris Cartacho

Com conhecimento de causa, digo que é mais fácil falar da situação do que de fato vivê-la. Teoria, discurso de que os comportamentos e julgamentos estão mudando, é uma coisa. Realidade é outra. Passar por isso desperta sentimentos contraditórios e confusos. Por mais resolvida, empoderada e bonita que eu me sinta aos 50, ainda surgem pensamentos do tipo “uma hora ele vai olhar e me achar velha”; “imagina o que a mãe dele vai dizer se souber que o filhinho sai com uma mulher de 50”; “imagina o que minha filha vai dizer se souber que a mãe sai com um cara quase da idade dela”; “e se um dia perguntarem se ele é meu filho?” Tudo bem que, quase sempre, esses pensamentos são espantados com um “f*d@-se!”

Falando bem sério (seja qual for a sua idade e a idade da sua mãe): como você reagiria se mamãe te apresentasse um namorado com a sua idade? Como você reagiria se seu irmão (ou seu melhor amigo) te apresentasse uma namorada com a idade da sua mãe? É desconfortável pensar nisso? A questão da diferença de idade ainda mexe com todas as cabeças e corações. E a ideia aqui é provocar a empatia para ver se os comportamentos começam verdadeiramente a mudar…

Relacionamentos amorosos fazem parte da vida. Nessa altura do meu campeonato não são a principal razão da vida – na verdade, nunca foram -, mas, sim, ainda desejo romance, companhia, diversão. E eu aos 51 e ele aos 37 não parecia nada demais. O relacionamento foi breve. Não acho que tenha sido a diferença de idade a nos separar (nossas conversas e pensamentos sobre a vida sempre foram muito de igual para igual). O problema foi que não morávamos na mesma cidade e a distância acabou pegando.

O baile seguiu. E depois disso, bem que tentei olhar com mais atenção para meus pares, os 50+. Mas só se aproximavam os 40-. No ano passado, no grupo de amigas mais chegadas, confessei quase envergonhada (como falei lá em cima, é excitante, mas também contraditório e confuso) que estava saindo com um cara de 32 anos (a diferença de idade passou a ser de 20 anos). O alvoroço foi grande. E mesmo entre elas – amigas – vieram os alertas: “é só sexo, tá?”; “se diverte, não pensa que é para casar”; “cuidado, pode ser um aproveitador, um espancador de mulheres”.

Caramba! Que destino o de uma mulher de 50+… Não “pode” namorar cara mais novo. Homem mais novo é só para se divertir. O boy certamente quer se aproveitar da “coroa”. Mulher de 50+ não pode se apaixonar. Pensando bem, melhor até nem transar. Pra que se expor, não é mesmo? Já não tem mais idade para isso. Quem sabe seja melhor entrar para uma clausura.

Só sei que entre preconceitos, medos, reflexões e vontades, o fato é que sigo “esbarrando” nos caras mais novos. Não de propósito, não que eu busque isso. Simplesmente acontece. Que fique claro que não tenho nada contra os mais velhos. A qualquer tempo, com quaisquer números que apontem a carteia de identidade, sou a favor do relacionamento bacana, brilho nos olhos, coração quente, risadas gostosas, papo interessante, sexo bom, respeito mútuo, afinidades além da química. Sou a favor de encontros, desejos, paixões, amores, por hoje, por um mês, por um ano, por uma vida.

Yara Achôa

Simples, tranquila e movida a brilho nos olhos. Seu combustível de vida é a paixão: por esporte, filhos, bichos, música, livros, seus textos, chocolate, natureza... E com fôlego de maratonista para correr atrás de seus sonhos.

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