Achei fotos antigas

Leia ouvindo: Marble Sounds – Photographs

Decidi passar o feriado de 7 de setembro na casa dos meus pais. Uma pausa, um respiro, um descansar a vista entre as montanhas, mergulhar na velha piscina de azulejos brancos do sítio. Minha paz! Era ali, naquele lugar que eu colocava os pensamentos em ordem e chegava próximo ao paraíso. Era o melhor lugar do mundo.

Depois de pegar o sol da manhã e repor a vitamina D que já estava em falta no corpo, decidi mexer no meu velho guarda roupa. Queria levar algumas peças antigas para a vida atual, achar no meu bagunçado guarda-roupa um novo espaço para elas. Eu só não imaginava que ali, dentro da minha antiga jaqueta de couro existia uma surpresa. Sem querer senti que em um dos bolsos fechados pelo zíper havia algo e decidi abrir. Um bilhete enrolado naqueles filmes antigos de fotografia.

“O melhor de mim. Você.” (dizia o bilhete)

Fiquei sem chão e como nos filmes voltei para aquele final de semana de inverno, que ficamos tomando vinho na sala e falando sobre a vida. Chorei. Não me vieram só as lembranças dele, veio a nossa história, as risadas pelo corredor, as tardes tomando sol, as caminhadas para a cachoeira que ficava ali perto e tudo aquilo que vivemos. Mas só o bilhete não bastava, o que será que tinha ali, naquele filme antigo. Em era de Iphone, rolo de filme é relíquia.

{ Imagem reprodução }
{ Imagem reprodução }

Fui para a cidade em busca de um lugar que revelasse as fotos, encontrei. Encontrei também as fotos daquele final de semana, não havia uma foto sequer dos meus pais, todas eram minhas. O bilhete fazia sentido. Só não fazia o menor sentido aquilo que me doía o peito, as lágrimas correndo no meu rosto e a surpresa ter demorado 5 anos para ser encontrada. Onde ele estaria naquela hora? Naquele mesmo feriado? Não tinha mais contato com ele, nossos amigos em comum se afastaram e a droga do facebook, tão útil para ciúmes, já não ajudava com as buscas. O celular não existia, me restava apelar para o bom e velho e-mail. Parece filme, mas era só a minha vida mesmo.

Vi, revi, me perdi e me reconheci naquelas 24 fotos de tantos ângulos e inúmeros sorrisos. Eu era feliz e nem desconfiava. Guimarães Rosa sempre teve razão, a felicidade acontece em minutinhos de descuido. Me vi em 24 situações de imensa felicidade pelo olhar dele. Em nenhuma das fotos olhava para a câmera ou sequer desconfiava que ele estava ali fazendo cliques. Ele sabia como ninguém me fazer feliz, e que falta ele me fazia. Nunca consegui superar o término, a ida dele para outro país, e em um mundo digital eu optei por perder o contato. Ele, em não deixar rastros.

Senti saudade dele, senti saudade de mim, chorei, ri, e me perdi de novo. Me reconheci nas fotos e não me encontrei no espelho. Perdi o chão e mais uma vez, o coração gritou. Tomei minhas doses de coragem e encontrei no endereço de e-mail uma estrada:

“Achei fotos antigas, e não me reconheci nas novas. Cadê você aqui?”.  Anexo enviei as fotos antigas e algumas novas.

Ele precisava saber que a surpresa de cinco anos atrás havia aparecido agora, e que o nosso término não fazia sentido. Talvez ele soubesse que aquele seria o nosso último inverno no sítio, talvez ele tivesse um plano, talvez ele tivesse tudo e eu decidi pelo nada. Larguei das mãos dele e optei por abraçar o mundo. Meu Deus!

Um dia quem sabe ele abra aquele e-mail e veja que algumas coisas não mudaram em mim. Um dia quem sabe ele me responda. Talvez ele até vá ler esse texto e reconhecer a história, mas se nada disso acontecer, não era para ser. Ele, mesmo sem querer, fez o melhor por mim. Depois de 5 anos na imensidão, encontrei coração.

A gente nunca acha que as pessoas que passam na nossa vida de maneira doce, saem dela de forma amarga. A gente esquece que o tempo reabre arquivos, traz de volta sentimentos e lembranças bonitas, e tudo isso por uma única razão: é bonito sentir saudade.

Assinatura_Ju

Juliana Manzato
Últimos posts por Juliana Manzato (exibir todos)

Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.

3 comentários em “Achei fotos antigas

  1. Sentir saudade é mesmo bonito.

    É um sentimento tão genuíno quanto todos os amores que sentimos nessa vida!!!!

    Que as nossas fotos velhas sejam um estímulo para que possamos nos descuidar um pouquinho da razão e dar a brecha que o destino procura pra nos fisgar pra outra história bonita! 🙂

    Não te conheço mas adoro a cia dos teus versos!!!!
    Bom restinho de dia pra você.

    Thatá

  2. A gente nunca acha que as pessoas que passam na nossa vida de maneira doce, saem dela de forma amarga. A gente esquece que o tempo reabre arquivos, traz de volta sentimentos e lembranças bonitas, e tudo isso por uma única razão: é bonito sentir saudade. (2)
    VOCÊ É ” DEMAIS ” JU, e eu amo o seu BLOG grande beijo <3

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Voltar ao topo