Agradeça também pelo o que não aconteceu

Eu reclamo, sempre tenho algo do que reclamar. Pelo menos na minha cabeça. Não, não me orgulho disso. Mas também não posso negar. A chuva que veio na hora que pus o pé pra fora de casa, o ônibus que atrasou, aquela roupa que não serve mais, a festa de sábado que não deu para ir, o mocinho que não correspondeu as minhas investidas. Sempre arranjamos motivos para reclamar. E vai falar que não? Somos humanos e nunca estamos satisfeitos.
Dizem que quando entramos pela primeira vez em uma igreja, podemos fazer um pedido. Porra, só um? Olha a reclameira aí de novo. Ontem visitei pela primeira vez uma capelinha muito da simpática. Pequenina, aconchegante, carregada de história e de energia. Minha mãe me lembrou do pedido. Mas se era só um, como podia escolher entre tantas coisas que eu quero e acho que preciso. Emprego, saúde, amor…A lista é longa. Franzi a testa.
Mas dessa vez, não quis, ainda que implicitamente, reclamar de algo que não estava bom e pedir conserto. Dessa vez, não choraminguei. Decidi que era hora mais do que própria para agradecer. Rezo todas as noites e agradeço pelo meu dia. Mas ali era diferente, era um “muito obrigada” bem mais ressonante, bem mais profundo do que um ritual de toda noite. Agradeci por tudo. Família. Amigos. Desafios. Provas. Conquistas. E para não generalizar e mostrar que meus agradecimentos eram bem conscientes, dei nome a todos esses “bois”.
Agradeci também tudo mais que está por vir. A fé é para evoluir. 

[ Imagem: reprodução ] 
Horas depois, no caminho de volta pra casa, houve um acidente. Pequeno nas proporções, mas grande no susto. E na hora do nervoso, não tive dúvidas: xinguei. E muito. Mas voltando em si, depois da onda de adrenalina passar e me deixar raciocinar novamente, me veio à cabeça que não tinha que falar nada a não ser “obrigada”. Obrigada por estar aqui inteira, pelos meus pais estarem bem, sem nenhum arranhão. Obrigada por ninguém mais ter se machucado. Obrigada por colocar duas pessoas estranhas para nos ajudar. Obrigada por ter tido aquele dia incrivelmente gostoso e poder chegar em casa em perfeitas condições para descansar em uma cama quentinha. Obrigada. Mil vezes obrigada.
Não sou de ficar falando em gratidão, porque acho que o obrigado não tem que ser audível, mas sincero acima de tudo. Ontem, a vida me ensinou o valor de agradecer e o que isso realmente significa. Não é só pelo o que acontece com a gente, mas também pelo que não acontece. E isso vale até para aquilo que a gente queria muito que acontecesse, mas não se tornou realidade.
Vou continuar reclamando – um pouco menos. Vou continuar agradecendo – bem mais.
ASS
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