Alter ego

Leia ouvindo: Sia – Chandelier

Não eram as saias curtas e batons vermelhos que definiam a ousadia dela. Tinha uma astúcia incomum e uma sagacidade misteriosa, expressadas desde o modo como abria a boca para falar até o jeito como pisava em cima daquele salto. Era destemida, sem freio, desavergonhada para viver.

Achava tedioso o modo como as outras mulheres cumpriam regras e se escondiam sob véus de uma sociedade careta. Ela pegava o telefone e ligava no dia seguinte, convidava o pretendente para tomar um chopp e até pagava a conta do motel. Despudorada e animada. Sentia tesão em viver uma vida louca.

Desenvolveu pavor de rituais melodramáticos e quis que tudo na rotina virasse pena. Sabia que a vida era um sopro, e queria que o sopro do vento levasse tudo que não era pena. Aliás, pena era o que ela sentia de gente que não se largava um pouco ao léu. O acaso nem sempre era ácido – ele sabia ser doce.

[ Imagem: reprodução ] 

O que ela mais gostava no abrir diário dos olhos era de poder trocar a música e dançar um ritmo novo a cada dia. Quem sabe noite. Quem sabe hora. Quem sabe silêncio. Ela gostava também de fechar os olhos e não ouvir nada. Dormir, descansar. Era acelerada quando lhe convinha, mas sabia que precisava apertar o pause para sentir o prazer de, mais uma vez, pressionar o play.

Cultiva até hoje o único vício que sempre teve: o de aproveitar cada segundo, roupa, pessoa, flores e sol como um presente que ganha todo santo dia dos céus. Não se importa com embrulhos e tradições banais, sabe que dádivas não vêm com aviso.

Ela não tinha nome registrado, endereço fixo ou forma concreta. Ainda está abstrata dentro de várias de nós esperando por uma liberdade de ação e expressão que grande parte do coletivo parece esperar ter. Não precisa ser convocada ou avisada sobre a necessidade de uso: é só ecoar o desejo lá de dentro que ela flutua e se liberta.

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Bianca Carvalho
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Bianca Carvalho

Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.

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