Amar de novo

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Leia ouvindo: Megan Davies – See You Again / Love Me Like You Do / Sugar (Acoustic Mashup)

Dizem que, passado um tempo, os seres humanos esquecem a dor. Não lembram exatamente a intensidade do sofrimento que passaram e se arriscam de novo. Acho que é verdade mesmo. Depois de tanta desilusão, medo, quedas de penhascos imensos ou apenas leves arranhões – mas que ardem mesmo assim –, tá lá a gente abrindo o cadeado do coração e entregando-se novamente ao amor.

Amar de novo é mais que um sentimento que brota no peito: é um ato de coragem. Numa época em que declarar-se virou pecado e em que preferir carinho a sexo é sinônimo de caretice datada, dar e receber o sentimento mais bonito do mundo é quase que uma transgressão.

A regra da geração é clara: despreze, desinteresse-se. Plante joguinhos. Visualize e não responda, demore a responder. Não curta todas as fotos na rede social – comentar, jamais. Não seja dependente, não seja carente. Ignore o amor. Esqueça o amor. Mas, no meio de tanto culto ao desapego, eu prefiro ser a última romântica e me arriscar no apego de novo, deixando para trás tudo aquilo que um dia pareceu dor demais, ostracismo demais.

[ Imagem: reprodução / Pinterest Cotidiano Dela ]
[ Imagem: reprodução / Pinterest Cotidiano Dela ]
Talvez seja o tipo de escolha que venha junto com a maturidade. A gente cresce e se torna mais bravo, corajoso. Não sei, me parece que o fôlego para lutar é outro. Amar de novo depois que o tempo passa é diferente: é entrega comedida, mas plena. É troca consciente, é agregar ao invés de completar. Sonhar junto, mas com planos de pé no chão. Encarar defeitos como lições e não só engolir o aprendizado, mas absorve-lo com paciência e sabedoria. Não cairei na besteira de afirmar que a maturidade nos traz somente escolhas conscientes, porque apaixonar-se é, na maior parte dos casos, involuntário. Mas acredito, com essa estranha mania de ter fé em finais felizes, que entendemos melhor cada plano que o universo traça pra gente.

Você já viu alguém morrer de desamor? Eu, nunca. Então se me perguntar se voltar a amar vale a pena, peço que Vinicius me dê a permissão de responder com seus versos:

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Bianca Carvalho

Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.
Bianca Carvalho

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