AMAR É UM GESTO DE CORAGEM

Leia ouvindo: Leona Lewis – Bleeding Love

Do banco de carona, eis que começam os questionamentos:

— Você é solteira?

– Sou sim!

– Como é que uma mulher linda, independente e inteligente como você está solteira?

– Acontece!

– Você é muito exigente?

– Aí eu não sei dizer! Só sei que não apareceu uma pessoa ainda que balançasse o meu coração de verdade!

– Esse meio nosso, de comunicação, tem muitos homens inteligentes!

– Eu sei, mas nunca me interessei por jornalistas!

– Obrigado pela parte que me toca! – ele disse sorrindo, no momento em que desceu do meu carro naquela noite em que nos conhecemos, no meio de um evento, com inúmeras pessoas ao redor. 

(…)

Foram três meses de trabalho e uma paixão avassaladora. Para ambos. Dos olhares curiosos dos primeiros dias da nova rotina para o primeiro beijo foram, salvo engano, seis dias. Os primeiros encontros tímidos, após o expediente, dando espaço para, paralelo a isso tudo, uma grande amizade.

Entre flores, inúmeros presentes e uma convivência diária que não permitia esgotar os assuntos, eu soube identificar que estava vivendo um grande amor. E que ele era recíproco.

Tudo acontece exatamente como tem que acontecer. Nossos primeiros planos não foram permitidos por Deus, e uma viagem extremamente necessária nos afastou por um mês. No fundo, diante de todas as dificuldades que imaginei enfrentar dali para a frente, torci para que aquela distância esfriasse as coisas, o que não aconteceu. Pelo contrário, o tempo e o espaço que nos afastaram, evidenciaram os sentimentos mais profundos. E dali para a frente foram mais seis meses de uma história baseada em companheirismo, troca e muito amor.

Acontece que ninguém nasce pronto, e as dificuldades começam a aparecer quando se dá espaço para coisas como preconceito, alguns achismos desnecessários e, claro, as poderosas opiniões alheias. Um ano depois, após a decisão de término e de que cada um seguiria a sua vida da forma que desejasse, nos batemos por acaso. Até então, eu tinha evitado todos os lugares em que eu pudesse encontrá-lo, e ele tinha feito o mesmo. Mas neste dia, um sorriso foi a minha primeira reação, congelado diante de uma pessoa fria e aparentemente raivosa. – Não pegue em mim – disse ele, sumindo pela porta mais próxima do corredor.

Algumas semanas depois, viajando a trabalho, recebo a mensagem de um amigo: “Você está sabendo o que aconteceu com João? Acabei de ficar sabendo que ele teve um AVC e está internado”.

(…)

De volta à minha cidade, e diante do agravamento do quadro dele, pedi a um médico amigo que me colocasse dentro do CTI onde ele estava internado.  “– Vou te deixar aqui um pouquinho sozinha com ele. Você precisa disso” – disse o médico, diante do meu espanto. E assim, em um hospital público e com todas as mazelas que ele, geralmente, acumula, o que me restou foi abrir o meu coração diante de alguém inconsciente e visivelmente acometido por algo que iria além de um problema instantâneo.

Não sei bem onde encontrei forças para aquilo tudo, mas falei com todo o meu amor tudo o que não pude falar durante aquele ano. Pedi perdão, inclusive, pela fraqueza de não conseguir conviver com ele, por não ter procurado nas datas especiais, e por ter rejeitado um pedido de reaproximação intermediado por um amigo em comum, meses depois do término.

“E se não tivéssemos terminado?”, “E se estivéssemos mais próximos?”, “E se eu tivesse escutado o meu coração de verdade?”, “E se eu tivesse tido coragem?”, eram perguntas que eu me fazia enquanto chorava, geralmente sozinha, dirigindo pela cidade entre um compromisso e outro.

Na sexta-feira, à noite, enquanto recebia todos na primeira grande festa da minha empresa, entendi verdadeiramente o que era precisar sorrir quando se queria sentar em um cantinho e chorar. Entendi o que era precisar ter forças de verdade para seguir. Vivi, na prática, textos que escrevia sobre a necessidade de seguir em frente. Quando as luzes se apagaram, sentei no meio do salão e suspirei. Lembro que um amigo ficou me fazendo companhia, achando que ali existia apenas uma mulher cansada. Naquele momento, eu era uma pessoa exaurida, que não conseguia expressar o aperto que tinha no peito.

As vinte e quatro horas seguintes foram de dores no corpo, muito sono e a certeza de que tudo estava chegando ao fim. No domingo, às 8h da manhã, recebi a notícia que, no fundo, já aguardava: – Nosso amigo acabou de nos deixar. Na sequência, uma amiga pessoal dele me escreveu: “Querida, ele te amava tanto, que só estava esperando o seu grande dia passar!”

Alguns dias depois, sentei na cadeira de um tatuador pela segunda vez. No braço esquerdo, e dessa vez voltada para mim, acompanhei o rapaz rabiscar no meu corpo, para sempre, uma pequena estrela em sua homenagem. Ela representa uma luz infinita, capaz de me guiar. Ao seu lado, a palavra CORAGEM para que nunca mais me falte, em nada…

Manu Berbert
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Manu Berbert

Baiana. Tom de voz alto, personalidade forte e palavras firmes. Observadora do mundo, das pessoas e dos seus comportamentos. Os olhos apontados para tudo, mas o dedo geralmente apontado para si mesmo.

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