Amor Demais

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Por @RubensGualdieri

Zé Pedro era o que se pode chamar de “boa praça”. Sempre bem humorado, levava seus dias com um otimismo de fazer Poliana ficar angustiada de inveja. Embora não tivesse o hábito da leitura e nem fizesse a menor ideia de quem fosse Poliana, Zé Pedro fazia, sem querer, o jogo do contente, que era procurar em cada situação, um lado positivo.

Zé Pedro era simples, nem bonito, nem feio, gostava de se arrumar a contento e era um incurável paquerador. Tanto era, que trazia duas namoradas a tiracolo. Moças bonitas, que trabalhavam pra vencer na vida e vinham de boa família.Cada uma morava em uma ponta da cidade e, talvez aí, fosse o segredo de Zé Pedro, pois assim, era pouco provável que as duas se encontrassem em algum lugar.

Todos diziam pro Zé Pedro escolher uma e parar de enganar a outra, no que rapidamente ele retrucava: “mas eu não engano ninguém. Tudo o que elas pedem, eu dou, faço todos os gostos, trato cada uma como uma rainha, levo pra passear, dou presentes… Que mais elas podem querer?”

Alguns mais chegados, desses que a gente até se dá ao prazer de escutar um conselho, discordavam de Zé Pedro e diziam que era engano, sim.

Foi então, que Zé Pedro, em um final de tarde, com dois ou três mais chegados em um bar, abriu o coração: “gente, eu amo as duas”. O assunto até daria outro contorno se a frase fosse dita em outra situação, mas, dentro de um boteco, com várias garrafas de cerveja vazias em cima da mesa e muitos graus etílicos a mais no cérebro, todos concordaram com Zé Pedro. E como Zé Pedro não era homem de duas palavras, isso foi o suficiente pra ele se convencer a declarar pras duas.

Os dias passaram, ele armou o plano e decidiu que seria na quarta-feira o dia de chamar as duas para o mesmo lugar e acabar com aquilo de uma vez. Acabar com o segredo, lógico, porque o que Zé Pedro mais queria, era começar aquilo de uma vez. Sendo aquilo, o que vocês imaginarem.

Zé Pedro estava decidido: combinou um bar gostoso, desses que aconchega a gente com o calor que só os subúrbios têm, passou numa relojoaria e tascou duas alianças com um brilhantezinho, cada uma em uma caixinha preta, toda trabalhada.

Quarta-feira chegou e Zé Pedro não via a hora de se encontrar com suas deusas. Os amigos, fizeram de tudo pra Zé Pedro desistir da ideia idiota de se declarar pra duas namoradas. Quem consegue amar duas mulheres ao mesmo tempo? E nada tirou a ideia de Zé Pedro da cabeça, que, com seu costumeiro otimismo, só falava: “vai dar certo, gente. Meu peito tem amor que não cabe direito aqui dentro”.

E deu seis da tarde e lá foi Zé Pedro pro botequim, onde iria colocar duas alianças com um brilhantezinho, em dois dedos diferentes. Chegando lá, a primeira coisa que Zé Pedro viu foi uma mulata, cabelos cacheados, corpo curvilíneo e pernas torneadas. Na mesa de frente estava uma loira, cabelos lisos, corpo esguio e longas pernas. Verso e reverso. Lindíssimas e diferentíssimas. Os amigos de Zé Pedro não sabiam explicar de onde ele arrancava lábia pra conseguir conquistar uma mulher mais linda que a outra. E lá estava: Zé Pedro parado na entrada do bar, recepcionado por dois sorrisos que mais pareciam a porta do céu, tamanha paz e felicidade transmitiam.

As duas se levantaram ao mesmo tempo, foram em direção a Zé Pedro ao mesmo tempo e olharam uma pra outra com o estranhamento da situação, ao mesmo tempo. Zé Pedro não fez nada, só ficou parado esperando que elas se aproximassem dele, o que aconteceu ao mesmo tempo.

A mulata era calma e comedida em cada passo, a loira era mais intempestiva. A mulata andava devagar, desviando das cadeiras, a loira ia simplesmente tirando as cadeiras da frente. E tudo isso acontecia ao mesmo tempo.

Em um lampejo, Zé Pedro achou que a melhor ideia naquele momento era ficar com as alianças de brilhantezinhos nas mãos, embora naquele momento tudo isso lhe pareceu uma tremenda idiotice.

Tudo isso ocorreu em segundos desde que ele chegara, mas parecia uma eternidade aquelas beldades vindo em sua direção e os pensamentos rondando sua cabeça na maneira de dizer pra que era aquela reunião.

Elas chegaram e quiseram saber o que estava acontecendo, cada uma perguntando à sua maneira – calma e segura de si e outra, em brada voz, esboçando um pequeno choro.

O que se seguiu, dizem as línguas que estavam por lá, foi inenarrável no sentido da quantidade de puxão de cabelo, palavrão, sopapos e finalmente, a separação. Cada uma foi pro seu lado. Tudo acabado. Nem a mulata curvilínea e nem a loira esguia. Zé Pedro estava aos prantos, com o peito apertado de tanta tristeza, com as duas alianças de brilhantezinhos nas mãos. Sentado no meio fio, não podia fazer muita coisa, a não ser, curtir sua dupla paixonite. E levantou-se, pôs o paletó nos ombros, baixou a cabeça e foi seguir a vida atravessando a rua pra ir beber onde pudesse aliviar seu peito apertado de tanta dor.

Foram gritos, sirenes, desespero. Rapidamente a ambulância chegou, mas ao que tudo indicava, Zé Pedro não ia ver o final disso. Ninguém atravessa uma avenida cheia de ônibus de cabeça baixa e fica pra contar a história.

Os paramédicos esmiuçavam sua carteira em busca de um contato, quando viram que ele era doador de órgãos… Zé Pedro podia não sobreviver àquela tristeza, mas alguém, ainda teria uma chance. Dali pro hospital, foi rápido. Zé Pedro via luzes, ouvia vozes e por incrível que pareça, sua dor estava concentrada no peito. Nada doía, só o peito.

Uma lágrima escorreu e seus olhos se fecharam. Alguém ganharia uma nova chance com o coração de Zé Pedro. Muita correria, médicos se paramentando, gritos e interfones histéricos. Tudo para que o coração de Zé Pedro pudesse continuar a bater em outro peito.

Mesa pronta, todos a postos e o procedimento começou. Os médicos que participavam daquele procedimento estavam prestes a entrar pra história, pois não iriam salvar uma, mas duas vidas. Dentro daquele peito cheio de amor, Zé Pedro trazia dois corações.


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7 Comments

  1. Anonymous says

    Que bonito !

  2. Bianca says

    Aff… Mata a véia de chorar mesmo!!!!

    De início fiquei com raivinha do Zé Pedro, depois até compreendi que ele amasse duas pessoas. Eu acho que pode ser possível, porém, difícil de administrar. Depois fui me identificando com Zé Pedro e cheguei a achar fofo que ele fosse honesto e ainda trouxesse alianças.

    Curioso a gente julgar uma pessoa que ama demais quando se está faltando amor no mundo. Mas realmente, não é algo que se aceite facilmente na sociedade hipócrita que a gente vive.

    Que, ao menos, Zé Pedro nos deixe a esperança de amar. De fazer bater nosso coração. Sempre.

  3. Rubens Gualdieri says

    Era esse o pretendido Bi: quero ver quem vai ficar com raiva do Zé Pedro : )

  4. Rafael Noris says

    Queria ser Zé Pedro e ter dinheiro pra comprar duas alianças com brilhante, ia gastar tudo no bar e continuar com o coração.

  5. Viviane Beringuello says

    Impossível ter raiva do Zé Pedro, muito melhor amar demais, do que curtir amargores.
    Parabéns pelo texto, muito bonito!!

  6. Aline Françani says

    Texto incrivel, não dá pra ficar com raiva do Zé pô!! hahaha
    bjs

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