ANÁLISE DE UM CORPO PERFEITO

Leia ouvindo: Beyoncé – Bigger

Desconstruir é um ato de coragem. Exige não só doses cavalares de humildade e resiliência, como escancara dores que a gente nunca chegou nem perto de sentir.

Demorei para enxergar os privilégios que me cabem, entre eles, está meu corpo e o tom da minha pele. Mulher branca, alta e magra. Nunca fui gorda e não sei o que é ser, nem de perto. O mais próximo que cheguei foi quando ganhei cerca de 8kg e encontrei certa dificuldade com as roupas do meu guarda-roupa.

Obviamente que nesse período, anos atrás, não existia qualquer debate sobre corpos reais. Tudo que não era “magro”, estava automaticamente fora do padrão. Sua saúde poderia estar em dia, bem como sua atividade física ou alimentação, mas se o seu corpo fosse considerado “gordo”, você não era socialmente aceita.

Quando paro para pensar, me lembro que já tive (inclusive aqui no cotidiano), um projeto verão para chamar de meu. Longe de achar que o projeto foi ruim, o nome era incrivelmente bem humorado, “A desculpa da barriga chapada”. O problema não era o nome, mas o propósito: um programa de emagrecimento para encaixar meu corpo no “padrão” esperado.

Apesar do projeto ter tido acompanhamento profissional, com nutricionista e personal, que me deu embasamento suficiente para tratar do assunto de maneira ética, a narrativa não foi nem um pouco inspiradora. Provavelmente incentivei mulheres a olharem para o próprio corpo com ódio, por não conseguirem chegar em resultados parecidos com os meus. Longe de ter tido o melhor resultado, mas uma mulher magra, que sempre fez atividade física e com acesso a bons profissionais consegue em 3 meses ver diferença no corpo. Óh o privilégio escancarado aqui!

A questão não era o meus resultados, mas o comparativo entre mulheres e a pressão por um padrão. Apesar de ter focado no incentivo, não olhei para a diversidade de corpos, metabolismo, estilo de vida e, de novo, nos privilégios.

Visitar o projeto, anos depois, me trouxe gatilhos. O quanto a projeção da magreza estava em fotos que ilustravam textos e todas as redes sociais do Cotidiano Dela. Era um feed perfeito, um projeto de imagem lindo, mas irreal. Aliás, surreal. Não me envergo do que fiz, mas me orgulho muito da consciência que criei com o passar dos anos.

Se antes era perfeito, hoje, o projeto é imperfeito. O feed ainda é pensado, mas no conteúdo existe uma busca incansável pela pluralidade e diversidade. Visito incômodos, ouço quem discorda, busco na crítica a melhora, e todos os dias faço questão de destruir muito dos ideais que me trouxeram até aqui. Chamo de consciência, mas você pode chamar do que quiser.

E justamente por falar em consciência, de classe – e de corpo, que decidi trazer a Versace para esse texto. O último desfile, no dia 25 de setembro, deu o que falar. Se antes poderia ser pela magreza das modelos, hoje, é para aplaudir corpos reais.

Jill Kortleve, Alva Claire e Precious Lee não seguem o padrão de magreza imposto até pouco tempo atrás. São modelos com corpos reais que desfilaram na passarela a representatividade feminina.

imagem: reprodução

Se antes a passarela era um lugar intocável e artístico, atualmente visitamos o sentimento de pertencer, de poder.

Ufa! Nada como saber que a celulite, a dobra, os seios avantajados, a bunda grande, o braço grosso, enfim representam o que a moda deveria ser a tempos: um lugar para expressar aquilo que a gente realmente é.

Não há nada de errado em ser magro, ou querer ser. O problema está no padrão de magreza imposto, levando mulheres – e homens, a odiarem seu corpo. Dietas milagrosas, pressão social para se encaixar, alinhar magreza à saúde, e outras tantas formas insustentáveis de ser.

O que a Versace fez deveria ser seguido por outras gigantes da moda.

A viagem ao fundo do mar proposta pela marca, que inclusive trouxe desenhos de estampa feitos pelo próprio fundador da marca, Gianni Versace, em 1991, foi um convite a uma nova moda. Essa que caminha à passos largos, mas que ainda enfrenta gigantescos muros e profundos abismos.

A primavera dos corpos reais está só começando. Sejamos então sementes diversas nesse vasto mundo da moda. Corpos reais são o verdadeiro normal.

Juliana Manzato
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Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.

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