Bilhetinhos

Foto: Natália Mota.
Foto: Natália Mota.

Para fazer uma declaração de amor não é preciso muito. Na verdade, quase nada, digo, de materiais e planejamento. O sentimento é requisito óbvio. Gosto do  papel e da caneta. Em datas especiais, o espelho e o batom. Quando eu era criança, toda as vezes que ia à casa dos meus avós, deixava um recadinho para eles. Qualquer superfície podia receber meus rabiscos ainda infantis: os cantinhos da agenda telefônica da minha avó, pedacinhos arrancados do bloco de notas do meu avô pregados com o ímãs na geladeira ou os cartõezinhos escondidos nas gavetas da casa – quando eu queria “surpreender”. Meus avós se foram, mas os bilhetinhos ficaram. E apesar de a saudade ser eterna, percebi que minhas declarações também são. Essa talvez tenha sido, sem querer, uma das mais importantes lições, entre tantas, que aprendi com eles: diga a quem você ama que você o ama. Sem delongas, sem vergonha, sem orgulho. Isso não é característica de quem é frágil como cristal, mas transparente como ele. Porque se temos uma certeza na vida é que um dia não estaremos mais aqui e, quando isso acontecer, saber que você não deixou um pingo de dúvida sobre o seu amor por alguém, é o que te confortará como um abraço. Seja amigo, pai, mãe, avós, namorado, marido… Não deixe que, mais tarde quando você não tiver mais esse alguém por perto – ainda que não seja definitivo como no caso dos meus avós –, um caroço chamado arrependimento entale na sua garganta e você não tenha para onde cuspir. Por isso, preservo com teimosia essa minha mania de deixar bilhetinhos por aí. Aos meus amores, todos os meus rabiscos de amor.

Nat - Dona Oncinha

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admin

Um comentário em “Bilhetinhos

  1. Nossa que texto lindo ! me identifiquei pois sou assim também, conhecida por meus textos quilometricos, e minhs frases curtas, mas sempre deixando um oi” mudando o dia das pessoas que amo. bj

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