BURNOUT

Leia ouvindo: Oasis – Don’t Look Back In Anger 

Era um dia como qualquer outro. A rotina acelerada já tão habitual, os telefones tocando sem parar, mais de 50 e-mails não respondidos na caixa de entrada, duas reuniões longas, uma viagem a trabalho na próxima quarta. A consulta médica de rotina teve que ficar pra outra semana, conseguiu encaixar o encontro com a amiga de infância nos contados 30 minutos de almoço! A impressão era de que a sua vida estava em perfeita sintonia com os seus sonhos e planos. Batalhara tanto para chegar onde estava. Quantas noites mal dormidas, quantos passeios adiados. Era a hora de trabalhar duro, dizia o seu lado racional! ‘Engula o choro’, era o que pensava quando o cansaço batia.

Entrou no carro, deu a partida e antes que conseguisse engatar a primeira marcha, sentiu aquele súbito aperto no peito, tão frequente para as poucas ocasiões em que podia estar sozinha. Respirou fundo, colocou pra tocar no rádio uma música animada, fez seu caminho e ignorou aquela sensação que crescia. Pensou: ‘daqui a pouco passa! Sempre passa’. Ledo engano! Dessa vez não passou.

Chegou ao bar, entrou apressada buscando nos rostos conhecidos de suas amigas o conforto para aquele incômodo que lhe tomava os poros. Tentou falar de amenidades, pediu um whisky sem gelo, 12 anos, duplo! Bebeu num gole só! A impressão era que o bar se fechava ao seu redor lhe tirando todo o ar. Ainda que rodeada de pessoas, brindando mais uma conquista profissional, a solidão era o prato principal daquela noite!

Levantou e saiu! Esqueceu que o carro estava no valet, esqueceu que os sapatos de salto não lhe permitiriam ir tão longe! Esqueceu quem era e, principalmente, para onde estava indo! Com o Universo não se brinca, e então pequenas gotas geladas começaram a lavar a sua maquiagem, enquanto lágrimas corriam de seus olhos estagnados! Era a hora de encarar a solidão! Sua vida – aquela tão perfeita vida – começou a passar como filme diante de seus olhos. Tudo o que ela reconhecia era solidão! Mesmo quando estava rodeada de pessoas, mesmo quando estava acompanhada de homens gentis e bem sucedidos, mesmo quando a balada estava cheia e as vozes se misturavam com o silêncio que gritava em seu peito!

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[ Imagem: reprodução ]


BURNOUT! Ela queria segurar a mão de alguém! Precisava de um colo que não necessitasse de explicações! A agenda do Iphone era excelente para tomar alguns drinks ou para contatos profissionais, mas não servia pra curar as dores! Onde se enfiaram os amigos de verdade? Pensou em voltar ao bar, para perto de suas amigas, para longe desse buraco negro que lhe engolia. Continuou andando, sabia que voltar não adiantaria nada.

Chega um momento na trajetória em que a realidade encara a nua e crua vida adulta. Os medos da juventude perdem a força, os monstros que moravam debaixo da cama ganham proporções muito maiores, mudam de endereço, passam a morar debaixo de nossas cadeiras do trabalho. O que antes era tão desejado passa a ser colocado a prova. Quais escolhas foram feitas seguindo o coração? Em qual delas acertamos? Quanto custa voltar atrás?

Ela não sabia a resposta para nenhuma dessas perguntas de um milhão de dólares, mas seu coração sussurrava bem baixinho que era a hora de tirar o pé do acelerador. A geração Y, criada e educada para ter sucesso, começou a descobrir que viver vai muito além do que ter uma carreira promissora e o carro do ano. Comprar um apê com varanda gourmet aos 30, ser gerente geral de alguma multinacional, casar e colocar os filhos numa escola bilíngue. Quem foi mesmo que escreveu esse roteirozinho batido e nos obrigou a encená-lo? Ela não tinha nada contra quem escolhe esse caminho, mas naquela noite ela descobriu que para si mesma essa realidade estava com o prazo de validade vencido.

Não pensou duas vezes. Pediu demissão, fez as malas e foi desintoxicar numa vila de pescadores na Bahia. Ela sabia que aquela condição não duraria pra sempre, mas precisava organizar a grande bagunça dentro de si mesma a fim de reencontrar-se. Quando decidisse voltar – se é que voltaria – queria cuidar de buscar a felicidade ao invés de correr atrás de uma conta bancária capaz de comprar milhões de coisas das quais ela jamais precisou para sorrir! Era o recomeço! Sem vergonha de largar a corda e perder o cabo de guerra. Sem receio de viver o arrependimento. Sem medo de ser feliz!

Dinheiro algum para a paz interior de um pôr do sol a beira mar. A vida vem em ondas, e ela decidiu aproveitar a marola!
Mayra_2015

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