#CÁPSULAS | DEIXEM-NOS MORRER JOVENS OU DEIXEM-NOS VIVER PARA SEMPRE

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Leia ouvindo: David Bowie – Heroes

Eu vivo uma crise pessoal. Ando triste, cansada, desanimada (motivos gerais não faltam, mas é difícil admitir publicamente – por isso escrevi e já sai correndo). Só não diria estar classicamente deprimida porque eu ainda corro. Explico: um dos sintomas mais básicos da depressão – o que sempre ouvi dizer e já escrevi em matérias que fiz – é que a doença pode ser caracterizada quando você deixa de fazer coisas que habitualmente fazia com muito prazer (no meu caso, correr). E como disse, apesar de tudo, eu ainda corro. Mas não é disso que quero tratar hoje aqui.

Essa tristeza e esse desânimo se agravaram essa semana, para minha surpresa, com a morte da Fernanda Young. Era uma mulher que eu admirava muito, mas não tinha contato direto. Sua morte me pegou tão desprevenida e me atingiu tão forte como se fosse de uma grande amiga.

Tinha 49 anos, quatro filhos (uma das primeiras coisas que lembrei quando soube de sua morte – isso sempre me atinge), um marido parceiro (inclusive de trabalho), amigos fieis, inteligência, postura, ética, coragem. Acho que me atingiu também por reconhecer nela a mulher de 50 que busco ser (na verdade acho que nossa nova geração de mulheres de 50 busca ser, mas não posso generalizar). Ela representa a mulher de 50 que pode ser o que quiser, falar o que quiser, se vestir (ou se despir) como quiser.

Imagem: reprodução

Minha ligação com a Fernanda tem a ver também com o fato dela correr. Descobri isso em 2006, quando estava dando meus primeiros passos no esporte. Li em uma revista um texto que ela escreveu:

“Dizem, os invejosos, que correr envelhece. Bom, o tempo envelhece. E eu prefiro enfrentá-lo na minha melhor forma. Nunca tendo sido gostosa, correndo, jamais ficarei caída. Corro, acima de tudo, porque gosto. Às vezes, chego quase a chorar, tamanha a emoção. A sensação é de que estou deixando o que fui – meu passado é um resíduo que defendo, mas não carrego – para trás; e meu corpo agradece, renovado. Eu corro porque acho bonito gente correndo, e quero que meus filhos vejam que todos somos capazes de mudar. E porque não suporto fazer regimes – é isso: corro porque adoro comer pizza à noite.”

Virou meu mantra de vida. Decorei. Falo sempre quando o assunto é “corrida envelhece”; e vivo essas palavras a cada final de treino. Esse trecho, com os devidos créditos, tem destaque em todas as minhas palestras. Em 2016, no lançamento do novo TV Mulher, no canal Viva, tive o prazer de conhecer a Fernanda Young e contar isso para ela, além de trocar umas ideias sobre corrida. Corredores apaixonados pelo esporte se entendem ao primeiro “eu também corro”.

E como Fernanda, também gosto de escrever (sou jornalista, mas meu sonho é me definir como ela se definia: “sou escritora”). Estou a anos-luz de seu talento, fluidez e brilhantismo e, para falar a real, ando bem travada para expor sentimentos e pensamentos em palavras. Mas lendo alguns textos seus e depoimentos de filhos e amigos, principalmente sobre escrever, ser livre e viver, de repente me enchi de coragem. Deixei para daqui a pouco um relatório e uma matéria que tenho de entregar “urgente” e estou aqui me permitindo fluir, sem me preocupar com pontos e vírgulas. E choro nesse exato momento – é tão bom, tão libertador… Choro pelas minhas tristezas, pela morte da Fernanda Young, pelo medo de me expor, pela coragem de me expor.

” Let us die young or let us live forever”
“Deixem-nos morrer jovens ou deixem-nos viver para sempre”

Obrigada FY.

Yara Achôa

Simples, tranquila e movida a brilho nos olhos. Seu combustível de vida é a paixão: por esporte, filhos, bichos, música, livros, seus textos, chocolate, natureza... E com fôlego de maratonista para correr atrás de seus sonhos.

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