CARTAS PARA MALU #5: HOJE SOU FELIZ

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Oi, Maria Luisa.

Voltei a te escrever porque sinto que lhe devo explicações. Eu duvido que você lembre das nossas primeiras noites, do começo da sua vida em nossa casa, no nosso quartinho, mas como eu nunca vou esquecer e serei acometida por culpas avassaladoras um tanto de vezes, sinto que lhe devo explicações.

Fotografia: Bianca Ferreira

Minha Malu,
Hoje eu sou feliz. Demais. Isso não significa que eu não tenha momentos de extremo cansaço e estresse da mente, mas eu estou feliz. Só que nem sempre foi assim. E, não, você não é culpada. Você é tão vítima quanto eu. No início da sua vida, quando suas angústias eram bem mais complicadas que as que apresenta hoje, mamãe se sentia triste. Não era porque você chorava ou não dormia, na verdade nem sei se há uma explicação prática. Mamãe simplesmente se sentia triste.

Por não ter me preparado com antecedência para virar mãe, mamãe leu muito, muito mesmo, nos nove meses que você morou na barriga dela. Sabia tudo sobre parto, sobre o que cada escolha representaria, quais itens ter no enxoval, até sobre como a amamentação poderia ser complicada – e foi. E também sabia sobre tristeza ou até depressão pós-parto. Mamãe sabia tudo sobre como os hormônios e a falta de se reconhecer em si poderiam trazer tristeza profunda, apesar de ter nos braços uma alegria imensa. Mas, mesmo assim, mamãe não teve a destreza para assumir para si que estava mal.

Mamãe quis muito ter um parto normal, mas não conseguiu. Isso se transformou em frustração que viria a se aliar com outras questões delicadas. Depois, por muito tempo, mamãe lutou com o próprio corpo para te alimentar. Porque era difícil, porque doía, porque tinha sono. Mas era uma escolha minha fazer aquilo e, assim como tudo na minha vida, encaro essas escolhas com extrema determinação. Eu amamentava por amor, não amava amamentar. Mas as dificuldades de te alimentar me desencadearam uma série de faltas: falta de vontade de sair, faltas nas ocasiões com as amigas, a falta que eu sentia do corpo de antes da gravidez, falta de felicidade.

Minha Malu,
A pressão da maternidade é diferente de qualquer outra pressão, vem de dentro e de fora com intensidade muito maior que toda situação que eu já havia vivido. Algumas mulheres encaram com mais leveza, outras precisam de tempo. Eu tinha certeza que saberia identificar a tristeza quando a sentisse, pois eu já havia aprendido sobre ela. Eu achava que ligaria correndo para minha terapeuta e diria “não consigo me sentir feliz”, mas eu não tive ganas dentro de mim para fazer isso. Maria Luisa, o que você precisa saber é que isso é comum e acomete diversas mulheres, mesmo aquelas que sonharam em ter alguém como você nos braços.

Um dia, depois de todo amor que já havia recebido de tantas pessoas, depois de passar uma manhã com você, papai e outros familiares fora de casa, maltratei papai pela milésima vez e bradei em voz alta: “eu estou infeliz com a minha vida”. Eu não consigo te dizer o quão profundo isso tocou o papai, porque não estou nos sapatos dele, mas posso afirmar que foi a frase mais necessária que eu podia falar. Porque foi a partir dela que tudo mudou. Minha Malu, quando assumimos nossos sentimentos para nós mesmos, várias janelas se abrem e tornam tudo que está dentro do nosso corpo-casa mais claro.

Parte de mim não conseguia se livrar da tristeza porque achava que não saberia se sentir diferente. Por medo da felicidade? Talvez, por mais estranho que isso soe. A mente carrega receios dentro dela que, muitas vezes, não se explica. A gente precisa é ser mais gentil consigo mesmo para poder acolher todo e qualquer sentimento e saber coloca-lo em seu devido lugar.

Lembro-me de uma animação da Disney, “Divertidamente”, que assistiremos juntas quando você crescer. Vai estar velho nessa época, mas minha Malu, você precisa ver comigo. A tristeza é inerente à gente, mas a alegria também vai estar sempre lá. Quando sabemos administrar as duas, conseguimos caminhar sentindo uma delas sem achar que a outra será paralisada para sempre. Ambas são gentis, como disse ali em cima que temos que ser com a gente, e sabem a hora de dar o lugar à outra.

Minha Malu,
A tristeza deu lugar à felicidade. E hoje sou feliz. Muito feliz.

Bianca Carvalho

Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.
Bianca Carvalho

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