CARTAS PARA MARIA | SOBRE BALLET E A ARTE MILENAR DE FAZER UM COQUE

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Leia ouvindo: Believe In Youtself (Musical The Wicked) – Lena Horne

Na breve pesquisa que fiz sobre penteados, há indícios de que surgiram por meio da criatividade dos gregos. As estátuas gregas, as pinturas expostas nos museus e as coleções privadas são provas disso. Outra coisa que descobri  é que, conforme o estilo dos fios, por exemplo, é possível descobrir costumes de uma época, de classes sociais ou de grupos definidos, como os hippies ou os punks.

Coques

O primeiro registro que encontrei sobre coques, objeto principal da minha pesquisa, foi na Suméria, onde as mulheres usavam os seus cabelos em coque (chignon pesado). Da mesma forma, usavam tranças em torno da cabeça, caindo sobre os ombros, pois os cabelos eram bem longos. Elas pulverizavam as mechas com um pó de ouro ou amido amarelo, que tinha perfume. Também usavam presilhas de ouro e outros ornamentos.

Ultimo Samurai

Não achem que o coque é um penteado exclusivo das mulheres. Se tem um corte de cabelo que viralizou nos últimos tempos é o coque de samurai. Ele é uma variação um pouco mais estilosa do corte pelo qual os guerreiros japoneses são conhecidos.

Na verdade, o estilo que foi usado durante o Período Edo (que durou de 1603 a 1869) era composto pela parte de cima da cabeça raspada, com as laterais mais curtas e um rabo de cabelo na parte de trás. Este era besuntado com um óleo e amarrado com um fio no topo da cabeça.

A verdade é que esse tipo de corte de cabelo não era usado exclusivamente pelos guerreiros samurais, mas sim por boa parte da população masculina do Japão que podia pagar por um kamiyui, nome dado aos barbeiros/cabeleireiros da época.

Não sei porque esse penteado foi aderido por homens. Uma especialista disse que homens feios que fazem coque samurai não viram galãs só esqueceram de avisá-los.

Por que eu estou falando sobre samurais? Acabei me empolgando … mas não se preocupem pois não irei usar um coque de samurai.

Coque Ballet

Ao retomar as aulas de ballet da Maria Clara, me lembrei somente na manhã do dia da aula que ela teria que usar um coque. A minha primeira reação foi procurar por tutoriais no youtube e encontrei diversos. Para meu desespero descobri que existem diversos tipos de coques. Não havia tempo para detalhes, cliquei no primeiro que tinha a imagem de uma bailarina e pronto. Assisti o vídeo que tinha aproximadamente 5 minutos e vendo a habilidade da mãe da bailarina achei que era o suficiente.

Logo depois do almoço começamos a nos preparar e me deparei com o primeiro problema. Não tinha as ferramentas necessárias para execução do coque. Leia com atenção: quando não se tem a habilidade para executar uma determinada tarefa, certifique-se que tem todas as ferramentas necessárias.

Comecei a improvisar e isso é algo que você não deve fazer em um momento desses. Levei 40 minutos para fazer um coque (sim, eu cronometrei), ao mesmo tempo em que a Maria Clara dizia: “Ai”, “Mamãe não fazia assim” e outras frases que não me recordo agora. Consegui chegar em um resultado estético satisfatório e fomos ao ballet. Ao chegar na escola a Maria Clara foi recebida com muito carinho pelas professoras e todos da escola. Para validar o trabalho fui falando para todo mundo que se aproximava que havia feito o coque. Ao iniciar a aula fiz uma comparação com todos os coques das demais bailarinas e, modéstia à parte, o que fizemos estava acima da média, mas, ao final da aula, o coque estava desmanchando. Você me deu uma bronca de leve e fiquei decepcionado com o resultado.

Fotografia: Rafael Stein

De verdade, não havia tempo para lamentação, a próxima aula era em dois dias depois e aí eu me preparei realmente.

Lembram do que falei sobre as ferramentas? Então, fui a uma loja especializada e mandei descer tudo que tinham para fazer o coque. Neste momento comecei a conhecer os nomes das “ferramentas”: uma escova, borrifador de água, spray de fixação, gel, grampos, presilhas, tic tacs de tamanhos variados, itens que não me lembro o nome agora e até uma escova de finalização que eu não sabia que existia.

No dia da aula separei todas as minhas ferramentas, organizando na sequência adequada e começamos a nos preparar. Não estava tão tenso como da primeira vez e me preparei melhor (assisti outros tutoriais).

Desta vez nos divertimos um pouco, brincamos com a minha dificuldade, acabei colocando um número exagerado de grampos para me certificar que não iria desmanchar ao final da aula e chegamos ao resultado final após aproximados 20 minutos (eu cronometrei de novo para me certificar da evolução).

Na hora marcada fomos até a escola, fiquei observando você (e o coque) enquanto fazia a aula e ensaiava a coreografia. Novamente fiz comparações com as demais bailarinas e notei que estava me preocupando demais com o resultado final. Eu me emocionei ao ver a Maria Clara dançando e sorrindo de canto ao me ver, ela estava linda.

Me recordei da Micaela e o quanto ela amava ver a Maria Clara dançando.

Ao final da aula a Maria Clara veio correndo, eu me agachei e nos abraçamos. Conversei um pouco com a professora Ana Lucia para saber como ela estava se saindo, comemos algo na lanchonete e fomos para casa.

Depois de algumas aulas, receber diversas dicas e ajuda, já consigo relaxar e me divertir enquanto nos arrumamos para a aula do ballet.

Quanto ao tempo de execução (continuo cronometrando), houve melhoras significativas mas ainda estou longe de atingir o índice olímpico. Vou continuar treinando. Ainda chego lá.

Rafael Stein

Rafael Stein

Sou Rafael Stein, pai da Maria Clara e do Francisco, marido, viúvo, empresário, co-founder @mutátil/estratégia1, motorista, dono de casa, peregrino, maquiador, cabeleireiro, design thinking, analista de suporte técnico, escritor, CEO, CTO, programador, vendedor de jornal, fotógrafo amador … Fui e sou um pouco de tudo. Quero ser muito mais nesta nova fase da vida onde assumo o papel de pai/mãe. Também escrevo no blog Cartas para Maria e quero ser seu amigo no Instagram.
Rafael Stein

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