CHEQUE MATE, PARTIU HAWAÍI

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Leia ouvindo: Francisco el Hombre – Triste, louca ou Má

Algumas perguntas de vocês me fazem concluir que não fui clara o suficiente no texto anterior. Tentei com um toque de sutileza dizer o que me fez jogar tudo pro alto, mas percebo que não fui clara com vocês.

Já conversamos aqui que os caminhos que te levam até um ano sabático, em sua maioria, não são linhas retas de plenitude e calma, mas sim um caminho tortuoso cheio de questionamentos e feridas.

Mas entre você questionar-se e tomar coragem de jogar tudo o que lutou/conquistou até chegar onde está, há uma diferença gigante. Não à toa, a maioria de nós engole o choro, sacode a poeira e volta pra onde está; segue no piloto automático, movido pelas circunstâncias e vai deixando que o destino se encarregue de escrever nossas próprias histórias.

Fotografia: Marilia Archangelo

Considerando o abismo social e de oportunidades que temos no Brasil, obviamente não podemos ignorar o fato de que a maioria esmagadora da nossa população jamais terá o privilégio de “jogar tudo pra cima” mas, ainda que essa consciência esteja posta, existe uma outra parcela gigante que sim, se questiona; que sim, pode, mas que prefere fingir que não. E isso não é uma crítica, logicamente, cada um sabe o que é melhor pra si; mas se quer o meu conselho: Tenha seu Período Sabático!

Se eu disser que escolhemos nossas carreiras muito jovens, não é uma fala que traz nenhuma novidade… Vestibulares aterrorizantes aos 17 anos, faculdade, a disputa acirrada no mercado de trabalho, que diga-se de passagem, de saudável não tem nada, esse modelo americanos, que copiamos, no Brasil; mas disso já falamos… Disso e da pesquisa da Robert Half apontando que o trabalhador brasileiro é o mais estressado do mundo, então vamos voltar aos 17 anos… 

Uma outra pesquisa mapeou 40 mil pessoas, em 13 capitais brasileiras e concluiu que a segunda faixa-etária mais estressada do país, são jovens pré vestibulandos (ou ingressados na faculdade), de até 23 anos. Ou seja, é como um gráfico fácil de enxergar nas nossas cabeças: você chega ao vestibular e está em segundo lugar no índice de stress do brasileiro; quando você entra no mercado de trabalho, você adentra – também – ao grupo mais estressado do Brasil (e não deixe de lembrar que esse grupo não é apenas o mais estressado do Brasil, como pertence ao grupo de trabalhadores mais estressados do mundo); que são os adultos até 37 anos, justamente aquele momento do: “Ou tudo, ou nada”; ou você faz seu primeiro milhão até os 30, vira CEO, alcança o Olimpo ou você é só mais um perdedor mesmo…

E quer saber o que pode ser ainda pior do que esses dados (sim, pode piorar!)? É o fato de que as empresas, os líderes (vamos colocar no masculinos mesmo, né? Pra sermos bem realistas com o fato de que o número de mulheres que está lá é bem irrisório), o mercado em si te apresentam a famigerada Meritocracia; primeiro ignoram o abismo social/educacional que vivemos, as barreiras de gênero, cor e sexualidade para aí, então te falar: “E se desistir, é fraco! E se não alcançar, é incompetente; a culpa é sua, seu mané!”

E de “mané” em “mané”, lá se foram 4 anos de análise (terapia) nessa cabecinha aqui; nos primeiros dois meses, pedi demissão do meu primeiro Programa de Talentos… Auto estima no lixo; eu realmente acreditei que eu era muito incompetente! Minhas vitórias, eram sorte, privilégio… Meus fracassos, incompetência. Lembro até hoje quando minha terapeuta me deu esse tapa na cara tão magnífico; o mundo voltou a sorrir pra mim. Uau, que milagre… Seria, se isso aqui fosse uma história de ficção e não a minha história real, rs.

Lá estava eu, onde? Não é obvio?! No meu Segundo programa de Talentos, é claro!

Não preciso entrar nos detalhes sobre o que é ser uma mulher dentro de uma empresa, pois esse tipo de leitura já tem aos montes e vocês estão aqui pra saber de Ano Sabático e eu ainda estou no: “Como cheguei nele”, mas é preciso que você entenda o quão difícil é o caminho até aqui… Por quantos anos eu pensei: “Não posso”, “Não quero”, “Isso é coisa de filhinho de papai, porque se nada der certo, papi banca” ou “Isso é coisa pra Europeu; eu preciso garantir a minha aposentadoria aqui, porque estão querendo tomá-la de mim!”

Não é uma decisão fácil, não foi um dia, não foi um mês… Hoje eu vejo que foram anos! Hoje eu vejo que nos meses em que passei desempregada, eu já tinha pensado em jogar tudo pro alto pra vender marmitas congeladas. E esse momento desemprego foi aos 24 anos, quando me formei, até ser aprovada no meu primeiro Programa de Talentos (foram 7 longos e horrorosos meses de sentimento de fracasso; trabalhei antes disso, mas eu “PRECISAVA” ser provada em um Programa de Talentos, assim como “PRECISAVA” estudar em uma faculdade pública).

Mas o “destino” se encarregou e eu fui aprovada no primeiro programa e lá fui eu em busca do meu título de “mulher CEO; aquela que venceu mediante todas as adversidades”. E, aqui, chamo de destino todos os esforços que eu coloquei em um objetivo que, na real, hoje nem sei o porque eu tinha; eram puramente ideais externos de sucesso.

Divaguei. Volta comigo? Estava falando sobre meu segundo Programa de Talentos (ufa, foi o último. Em breve, espero que você só leia “Ano Sabático” por aqui!).

Divaguei, quando pensei na dificuldade que é ser uma mulher dentro do mercado de trabalho e a dificuldade maior que pode ser quando, você, simpatizante do feminismo, mas ainda sem saber exatamente do que se trata (porque a gente pensa que sabe, mas alerto: isso requer MUITO estudo!), se depara com as estatísticas. 

As estatísticas são cruéis… Feminicídio, violência sexual, e aquelas nas quais eu parei de falar: “Isso acontece com outras mulheres” e me deparei com: “Isso acontece comigo!”, como: 

De acordo com o instituto Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, as mulheres estudam mais do que os homens em todas as faixas etárias analisadas, elas estudam, pelo menos, um ano a mais (isso aí já pode ser um MBA, por exemplo) e além de estudarem por mais tempo, mais mulheres estudam, por exemplo: Entre 18 e 24 anos (faculdade), 32% das mulheres estudaram, contra 29% dos homens (embora note-se que na idade inicial da educação, aos 4 anos, os pais optem mais por ingressarem os meninos na escola, sendo 73,3% de meninos matriculados e 72,3% de meninas.

Segundo IBGE, a mulher trabalha três horas semanais a mais do que os homens e dados do mesmo instituto apontam que a mulher ganha 23,5% menos do que os homens em cargos iguais e considere que esses 23,5% são uma média, pois um estudo da FGV mostra que “Quanto mais estuda/sobe de cargo, pior fica”. Quer ver? Mulheres sem diploma, ganham 28% a menos do que homens sem diploma. Já quando os dois tem nível universitário, a diferença pula para 47,4%. Chocante, né? “Será que são casos isolados… Porque a prima da minha tia, ganha mais”? “Não sei se é bem assim não. Na empresa onde eu trabalho, não vejo isso!”. Pois é; eu ganhava 40% a menos, quando pedi demissão e embarquei na aventura do Ano Sabático!

Comecei ganhando 30% a menos, fui promovida e cheguei aos 40% em menos de 2 anos; acho que chegar aos 47,4% não me custaria muito… Mas é a Meritocracia, né? Quem mandou eu ter a auto estima baixa e negociar mal o meu salário? Ouvi isso de dois gestores; sendo quem decidiu meu salário a mesma pessoa que me contou sobre o “poderia ser um pouco a mais” de livre e espontânea vontade em uma roda de “empoderamento feminino”, com várias outras pessoas ouvindo, pela primeira vez, que eu ganhava menos e que a culpa era minha. Claro que acreditei, inicialmente que, a intenção foi de ajuda, até raciocinar e entender que quem quer empoderar alguém não dá um “você tá abaixo, agora se vira”, simplesmente não diminui.

Comecei a dedicar totalmente a energia que, antes, era voltada para meus resultados em palavras de persuasão para convencer meus gestores de que eu era boa o suficiente e de que eu era merecedora do reconhecimento. Na real de algo que simplesmente é previsto em lei. Hoje vejo que essas palavras eram pra convencer à somente uma pessoa: eu! Entender que eu era sim boa, que o sistema é que era absurdo e que eu não queria mais me encaixar.

Cada vez mais elogios, cada vez mais metas batidas, cada vez mais promoções, cada vez mais eu era a única mulher onde estava (literamente falando), reforçando então, aquela máxima de que a Meritocracia é uma farsa e das mais cruéis possíveis: Quanto mais exceção você é, mais você sabe que ali existe uma regra!

Enfim; aí sim atribuo ao destino, uma rasteira muito da bem dada, uma puxada de tapete daquelas que você vai direto e bate com a cabeça no chão e aquele mesmo chacoalhão dos últimos 5 anos de “O que é que eu estou fazendo aqui?

Cheque Mate, partiu HAWAÍI!

Marília Archangelo

Apaixonada por viajar e pela natureza, trago na mala as experiências que me fazem ser quem eu sou e o entusiasmo, quase que um desassossego pelos olhares que ainda me transformarão em tudo o que eu vim para ser. Qual é o próximo destino?

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