COMO NÃO AMAR O NOSSO CORPO?

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Leia ouvindo: Vera Blue – Hold

Todo mundo tem aquela roupa que acha que cai super bem no próprio corpo e aquela que não tem Anna Wintour que te faça gostar de vestir. Meu armário, de uns tempos pra cá, está lotado de vestidos e saias longas. Porque me caem bem, me alongam a silhueta e não me apertam. Também, há pouco tempo, aderi à pantacourt. Soltinhas e anti-calor. Minha estação do ano favorita para me vestir? Inverno. Diante dessas dicas que estou jogando, pode ser que você já preveja minha peça de roupa mais detestada. Se ainda não tem nem ideia, deixa que eu te conto: eu odeio o biquíni.

Fotografia: Guilherme Mira

Eu sou carioca, nascida e criada no Rio de Janeiro até os 17 anos. Fiz uma pausa de 10 anos na minha relação com a cidade e voltei. Então, em mais de 20 anos vividos, eu convivi com mais de um sol e calor pujante. As minhas férias eram sempre na casa de praia da minha avó, mas quando não dava para viajar, eu passava o dia todo na piscina do clube. Eu não posso dizer que me lembro de alimentar esse desgosto desde sempre, mas posso afirmar que o incômodo me persegue, pelo menos, desde o início da adolescência.

Claro, faz todo sentido. Eu nunca fui uma menina de corpo padrão. E eu sempre estive rodeada de várias meninas de corpo padrão. A partir do dia em que tomei consciência sobre a minha imagem e decidi que não queria gostar dela, por motivos óbvios que já estamos cansados de debater nos dias de hoje, eu passei a odiar o biquíni e as ocasiões em que precisava usá-lo. Levando em consideração a cidade onde eu morava/moro, ocasiões como essa são, e sempre serão, inúmeras.

Quando engravidei, eu decidi deixar de lado meu ódio pelo biquíni. Até porque as pessoas têm olhares muito mais gentis com as gestantes. Mas depois que minha Malu nasceu… bem, o biquíni criou lugar cativo no fundo da gaveta mais baixa. As mudanças pelas quais passa um corpo feminino durante e depois da gestação podem ser algo que eu chamava de cruel. Até que li um texto compartilhado no Facebook e decidi mudar de opinião. É lógico que você ganha uma nova flacidez e que, dependendo da sua rotina e estado psicológico, pode se tornar uma realidade duradoura ou até permanente. O mesmo vale pros peitos que deixam de ser firmes. E é claro que isso pode mexer com a sua autoestima! Você não está sozinha.

Em cada esquina que a gente passa, parece que tem 100 fulanas magras e com seus corpos “no lugar”. É pior ainda quando elas estão empurrando carrinhos de bebê ou de mãos dadas com uma criança. É como se fossemos as últimas incompetentes da boa forma. Mas lembra quando sua mãe dizia “você não é todo mundo”? Pois é, ela estava certa. Aquela realidade ali na frente não é a nossa. E não há motivos para odiarmos o corpo que nos abriga e que foi casa e alimento para quem geramos.

Deixa eu te contar uma história: havia uma menina que morava numa cidade que atingia 40° graus no verão. Era uma cidade de praia, totalmente democrática quanto às vestes de homens e mulheres, onde todo mundo vai pra rua curtir o sol e praticar esportes. Essa menina, quando convidada para sair de casa, vestia roupas que cobriam suas pernas, braços e barriga porque morria de vergonha de mostra-los. Passava um calor danado.

Você concorda com as atitudes da menina? Eu, não. E já que a menina retratada sou eu, depois de um convite do próprio marido para ir à praia e investidas repetidas em um mesmo maiô, resolvi tirar do fundo da gaveta aquele biquíni tão escondidinho. Doei alguns que não faziam mais sentido para o meu gosto, arrumei aqueles que ainda faziam sentido e coloquei um no corpo. Foi um desafio, não vou negar. Mas também foi libertador. O pontapé para continuar.

Ficou curioso sobre o texto do Facebook que mencionei ali em cima? Dá só uma lida: “Estudem biologia. Sou estudante de biologia e fico chocada. Se acontece qualquer problema na divisão celular e a célula não consegue se corrigir, ela se mata para não te prejudicar. Se você tem uma lesão no cérebro, ele transfere a função dessa área para uma intacta para te manter vivo e bem. Osteoporose acontece porque seus músculos precisam de cálcio para funcionar e seu coração é um músculo. Com deficiência de cálcio, o corpo tira dos ossos para que seu coração siga batendo. Seus leucócitos procuram bactérias, vírus, etc no seu corpo para matar e se eles são infectados também, cometem suicídio. Seus neurônios possuem diversos mecanismos para existirem bem e possibilitarem sua visão, audição, memória e mais um monte de coisa. Tudo isso o tempo inteiro. O TEMPO INTEIRO. O corpo não para um segundo de lutar para te manter vivo e bem. Se algum cisco entra nos seus olhos, os músculos que eles possuem se movimentam involuntariamente para tirar o cisco de lá. Existe uma glândula que produz lágrimas para que suas pálpebras não arranhem suas córneas. Existem cílios que protegem seus olhos de agentes externos e até do vento que pode incomodar. Ele faz tudo isso, do momento em que se forma, 24 horas por dia, o tempo todo, sem descanso, tudo para que você viva. Como não amar ele? Como? Como? Ele te ama tanto. As vezes ele falha (doenças), mas em nenhum momento ele deixa de tentar. Um corpo com câncer luta contra o câncer, um corpo com gripe luta contra a gripe, um corpo com uma infecção luta contra ela. O tempo todo, tudo que ele faz é para que você viva e não sofra porque ele te ama e porque você é importante. A natureza precisa de você.”

E eu repito a pergunta do(a) autor(a) anônimo: como não amar nosso corpo? Como? É superficial demais julgar nosso corpo todo pela capa que reveste ele. Todo ele tem um propósito e a gente precisa ser gentil com o conjunto inteirinho. Odiar nosso corpo é negligenciar a máquina perfeita que trabalha o tempo todo pra permitir que a gente curta a vida. Não é justo e não vale a pena.

Bianca Carvalho

Uma carioca branquela, bagunceira e desbocada. Uma mulher questionadora, inquieta e expansiva. Uma amante do mundo, dos cachorros e de pessoas apaixonadas pela vida.
Bianca Carvalho

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