Como uma onda

Lembro como se fosse hoje, o primeiro caldo que tomei na praia. Eu deveria ter uns 4 ou 5 anos e estava com os meus pais no Guarujá. Decidi driblar o meu pai e ir um pouco mais no fundo, onde a água batia na minha cintura e eu podia pegar uma onda melhor com a minha super prancha de isopor (!). Que garota aventureira!

Não demorou muito para eu ser engolida por uma onda e depois por outra, perder a prancha e sair chorando dali, assustada, com o rebuliço do mar e com a quantidade de água salgada que eu tomei. Meu pai me pegou no colo e logo chegou a minha mãe, assustados com tudo que tinha acontecido, porque afinal, quem tinha sido sapeca ali era eu.

Algum tempo depois – que não demorou muito, aprendi que a vida é como o mar, a gente nunca sabe quando vai virar o tempo, quando vai ter ressaca, quando vai vir uma onda maior do quê espera e fazer tudo virar arrebentação.

A vida é feita de eternas tentativas, a gente precisa tentar passar a parte de arrebentação das ondas para chegar onde se quer. É nessa hora que escolher por enfrentar desafios te faz mais forte.

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O mundo não é justo ou correto, é sujo mesmo. Assim como me surpreendi com algumas ondas, água salgada e susto com 5 anos, com 25, já tomei ondas maiores na cabeça, me decepcionei muito com pessoas e nunca quis tanto voltar a ter 5 anos e ir me aventurar no Guarujá com a minha prancha de isopor. Ser adulto é dolorido demais.

Foi com o passar do tempo, que as ondas foram aumentando e a cada dia que passa, me sinto cada vez mais engolida por cada uma delas, sabe porque? Por que você não tem mais que só se dedicar à algo, você tem que se matar por aquilo. Você apesar de livre, é visto por uma sociedade que te julga, te chamando de vagabundo se anda de skate ou de puta se usa shorts curto. Você precisa estar no facebook, precisa colocar aquela foto no instagram, precisa se comportar, precisa ganhar dinheiro, ter o carro do ano, um cabelo bonito, ser magra, ser aceita, ser uma boa profissional, ter filhos, ser uma boa pessoa, entre tantas outras coisas.

A onda, parece só ter aumentado e a sensação que eu tenho é que por mais que você aprenda a nadar e a furar ondas, uma hora ou outra vem o caldo, e hoje, o caldo é muito mais doído que o de antigamente. Continuo tendo o colo dos meus pais para os sustos com os caldos da vida, mas doí saber que a cada um deles, saio mais ralada, mais machucada, porém mais forte. E me pergunto como pode o ser humano se fortalecer diante de tanta dor?

Todas as noites eu peço por ondas. Ondas de coisas boas, de paz, amor, sentimentos bons, felicidade, harmonia, prosperidade e coisas bonitas.

Ainda rezo baixinho: Deus, livra-me daquela areia remexida, da falta de fôlego ou de coragem. Me ajude a furar a onda, passar a arrebentação e chegar na calmaria. Porque apesar de mares calmos não fazerem bons marinhos, calmaria também faz bem, pro fôlego, alma e coração.

Assinatura Ju - 2013

Juliana Manzato
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Juliana Manzato

Apaixonada por amor, cachorros, textos e coisas inspiradoras. Adora fotografia, mar, sol, doce de padaria, verão e olhar o céu azul. Esportista. Feminista. 80 porcentista. Irônica eu? Imagina.

Um comentário em “Como uma onda

  1. Gente, fico passada com os textos! Me identifico em cada um deles, sempre tem algo que leio e logo penso “isso é muito eu”. Haha.

    Parabéns! Sou fã do trabalho de vcs! Grande beijo e mais sucesso!

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