Confinada em família

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Leia ouvindo: Sam Evian – Cactus

Minhas paredes e janelas foram deixadas naquela cidade que decidi fazer minha morada. Antes de fechar as portas rumo a segurança em maior espaço, esqueci de me despedir, esqueci de pensar sobre a água das plantas, a comida no freezer, as maquiagens, roupas e tantas coisas.

A esperança no coração contabilizava alguns poucos dias, ou quem sabe duas semanas, longe do meu próprio espaço. Com uma agenda atribulada, cheia de planos a seguir no home office, rumei até a casa dos meus pais. Meros 280 kms de distância daquele pequeno apartamento do qual fiz meu lar.

Nos primeiros dias 14 dias, o isolamento entre um e outro foi tomado como regra. Dias antes, da decisão de unir isolamentos sociais, havia encontrado com amigos e nada mais justo que ver se apresentava os temíveis sintomas em isolamento sozinha.

Fotografia: Luiza Pellicani

Mas depois, quatro pessoas desabituadas a conviver tiveram mais uma vez que se reencontrar pelos cantos e reaprender a socializar sem os escapes das saídas modernas.

Quantas vezes me vi presa como minhas personagens favoritas de diversos autores. Quantas pequenas brigas por conta de louças não limpas, entradas em cômodos já ocupados ou por uma televisão compartilhada.

Quantas lágrimas compartilhadas ou engolidas por conta de amigos cujos trabalhos foram ceifados, ou cujo trabalho na rotina do hospital foi dividida, ou nos casos mais tristes a busca por um leito ou um atendimento médico. Lágrimas escondidas no travesseiro.

Três em home office, internet oscilando e prazos curtos são temperos ótimos para qualquer assassinato de Agatha Christie. É a única certeza depois de mais de 40 dias dividindo a mesma casa.

Tempos de guerra e paz em um ambiente com grandes paredes, vários cômodos, boa comida e cheiro de pão fresco feito no capricho pela mãe. Respiro tranquilo e lamento aqueles que não terão a mesma sorte, não terão tanto teto, não terão tanta segurança.

O confinamento familiar não é o mais difícil, no meio dessa loucura toda, vou aprendendo a reviver perto daqueles que nos guiaram por toda a vida.

Luiza Pellicani
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