Cotidiano Dela #02 | A DUPLA (OU “COMO SE ENCONTRAR COM SI MESMA”)

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Leia Ouvindo: Marisa Monte – Gerânio

Depois de criar minimamente os dois filhos, resolveu buscar viver a vida. Experimentou cedo a formosura da gravidez e as algias do parto. Deixou de lado, assim deu a luz pela primeira vez, os deveres externos. Seu ganha-pão, todas as pompas da posição de admirada e foi ser mãe. Foram alguns anos de sorriso no rosto e suor na testa, entre recreios e adestramentos. Aprenderam a engatinhar, conseguiram andar sozinhos e hoje praticam seus esportes preferidos depois da escola, gosto por movimento herdado todinho dela. Era hora de abrir espaço e se olhar de novo fora da família, não mais só como progenitora, mas também como pessoa autônoma, como mulher.

Começou a brincar com madeira e pano e logo pegou uns trabalhos de molduras e tecido, encomendas estéticas. Mais um pouco e poderia tentar voltar a escrever as histórias de fantasias que tanto gosto lhe dava quando sonhava ser escritora. Recolheu-se também na vaidade e fechava, todos os dias, três turnos de cuidados. Tinha a academia, a yoga, corrida com as crianças, dançava jazz. Sempre em transpiração, ebulia prazer e felicidade.

Mas dedicação tanta é de cansar. Mesmo dividindo com o companheiro as tarefas de criar duas crianças e cuidar da limpeza da casa, como acordar, se exercitar, tratar dos filhos, cozinhar, fazer mais treinos, mais trabalhos manuais, mais crianças, mais banhos, mais danças, e ainda ser mulher do seu homem, ser mulher de si mesma e se esparramar no sofá com qualidade para ler com teima e zelo os livros que gostava tanto de deliciar? Foi se obrigando a dormir mais tarde e conseguindo se levantar mais cedo. Acordava ainda no escuro para preparar as mudas de roupa do dia, as calças elásticas para ginástica e alongamentos, jeans para levar os filhos à escola ou ir ao banco enquanto o companheiro ia buscá-los, fazer as entregas de suas peças e seus lencinhos, blusinha de namorar mais tarde, pijaminha para madrugar sossegada quando todos ainda dormiam, atirada com as pernas para cima, cabelo molhado, cheirando a sabonete. Ia dormir já depois que os sinos retomavam à única badalada com a cabeça à mil.

Eram planos e projetos e a satisfação com seu corpo, sua elasticidade, a capacidade retomada de gostar de si e ter autonomia corporal para fazer o que achasse que devesse fazer. Ia dormir viva e não dormia. Passou a ficar acordada até um pouco mais tarde e acordava sempre cedo para retomar as atividades do dia. Sempre ativa demais. Sempre empolgada demais. Fazia cada vez mais coisas em velocidade tamanha que, certa manhã, ainda acordada, foi dormir e topou consigo mesma recém-acordada no corredor, rumo ao banho. Deu bom dia, viu que estava sorrindo e desejou-lhe sorte.

Foi dormir feliz.

* * *

Oi gente! Jader falando aqui. =)

Para quem ainda não me conhece, sou escritor. Tenho três livros publicados (o Ela Prefere as Uvas Verdes, o Do Amor e o Deserto Negro) e escrevo crônicas e contos de ficção na Internet tem doze anos. Primeiro em um blog (vocês se lembram deles?), depois no portal PapodeHomem, de florescimento humano que mostra uma masculinidade mais positiva e diversa. Lá, fui colaborador, editor do site por seis anos e depois colunista, com a coluna Do Amor, com mais de 2.4 milhões de acessos, colocando um pouco do amor romântico em xeque, deixando ele meio sujo e na sarjeta para aprendermos a lidar melhor com as relações amorosas.

Disso, surgiu o livro Do Amor, viabilizado com financiamento coletivo em 2017, ultrapassando a meta inicial e chegando aos 111%, arrecadando mais de 20 mil reais e alcançando mais de 300 apoiadores.

Hoje a coluna está de casa nova, lá no Hypeness, e vou escrever aqui no Cotidiano Dela também! Então, quinzenalmente, aos domingos, estarei aqui com uma nova história de amores tortos e deliciosos. E tô bem feliz com o convite da Juju Manzato, uma pessoa muito querida. Mas vocês já devem saber disso. <3

Cheguem mais pertinho. Tem coisa boa pra acontecer. Aqui na assinatura tem os links das minhas redes sociais. Só se aproximar.

Um beijo!

Jader Pires

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