Cotidiano Dela #03 | “A gente até se paquerava, mas ninguém tomou a iniciativa e não nos pegamos”

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Leia Ouvindo: Caetano Veloso – Da maior importância

O segredo era sempre dar apenas duas batidas secas na porta. Ela já entendia o código e, sabendo se tratar do melhor amigo, já aparecia saltando no colo dele, abraçando-com com as duas pernas até que ele a levasse para dentro do apartamento. E assim o fez, carregando o corpo macio dela até o meio da sala, usando um vestido de flor e só, descalça, desnuda de sutiã, confortável para arrumar tudo de novo na casa nova, depois de seis longas semanas pulando de cama de hóspede em colchões infláveis desde que terminou o namoro. E ele foi lá para ajudá-la com os detalhes finais. Acendeu a luminária que ficava ao lado do sofá e apagou a luz. “Bem melhor pra te ver só nos detalhes”, brincou enquanto ela trazia vinho e duas taças lá da cozinha.

Ele voltou para a porta e trouxe do corredor uma caixa de tamanho mediano com uma meia dúzia de livros, um Kafka, três Raduan Nassar, uma Rupi Kaur. E três discos, “Fôrça Bruta” do Jorge Ben, o segundo do Tim Maia, aquele de 1971, e o “Qualquer Coisa”, do Caetano, eleito pra rodar no tocador de vinis. Tinha salvo todos os itens quando viu o fim do namoro da sua grande amiga. “Esses aqui não podiam ficar na sorte da escolha na hora da divisão”, ele disse rindo enquanto mostrava para ela passando as mãos como se trouxesse consigo grandes pedras preciosas. Sentaram-se no tapete da sala, ela com os pezinhos de lado, ele encostado nas pernas do sofá. Abriram a primeira parte da conversa para os recentes desabafos, ele falando um tiquinho do trabalho que estava estressante e deixando a maior parte do tempo para ela compartilhar as últimas do fim de namoro, as conversas saudáveis demais para o gosto dela com e ex, de como ela estava se sentindo com essas transformações, uma casa nova, outro bairro, a sensação de não ter mais com quem se deitar, mas as possibilidades de conhecer gente nova, experimentar brincadeiras que estavam adormecidas com a relação, passada. E ele contou umas graças com ela, dizendo que, se fosse com o jeito que ela paquera mal, que iria “demorar pra brincar de novo”. Tapinhas nas pernas dele, sorrisinhos de ambos, o silêncio, ele olhando pra cima, ela tomando outro gole do vinho.

Fotografia: Juliana Manzato

Passou, pelo menos na cabeça dele, e presumiu estar acontecendo na dela também, que ele sabia bem do que estava falando. Antes de serem os melhores amigos um do outro, ela chegou a ter interesse bobo nele, coisa de verão, sem ter obtido sucesso. Ele diz nunca ter desconfiado, e há a conhecida história que ele a abraçou no fim de uma festa, os dois bêbados, e que ela jura de pés juntos ter sentido que ele também queria, mas ele diz nem se lembrar qual foi este evento. Ela voltou a botar os olhos nele e disse que sabe, lá no fundo, que em algum momento ele já deve ter tido essa ideia. E, em silêncio, ele se recordou que não era bem uma festa, mas uma vez em que trabalharam juntos em um evento e, no último dia, comemoraram bebendo muito nos bastidores e, esperando o táxi que a empresa disponibilizou para levá-los embora, ele a abraçou e, mais ainda, tirou um beijo dela. Mas nunca perguntou se ela tinha esquecido ou se mergulhou esse detalhe no deslembrar da mente, para não ter que falar sobre o assunto.

Ela dava plena atenção no desencadear de pensamentos dele, ele reparava no jeito com que ela passava os dedos dos pés uns nos outros. Ela bebendo, ele babando. Ela culpando o vinho, “oops”, ele teso em seu lugar.

A noite passando. A madrugada cansando. A manhã se aproximando.

E ficou por isso mesmo. Ela foi escovar os dentes para dormir, ele pensou em deitar na sala, mas foi embora assim que se levantou.

Esqueceram de desligar a vitrola, que ficou rodando o silêncio de um fim de disco.

* * *

Oi gente! Jader falando aqui. =)

Para quem ainda não me conhece, sou escritor. Tenho três livros publicados (o Ela Prefere as Uvas Verdes, o Do Amor e o Deserto Negro) e escrevo crônicas e contos de ficção na Internet tem doze anos. Primeiro em um blog (vocês se lembram deles?), depois no portal PapodeHomem, de florescimento humano que mostra uma masculinidade mais positiva e diversa. Lá, fui colaborador, editor do site por seis anos e depois colunista, com a coluna Do Amor, com mais de 2.4 milhões de acessos, colocando um pouco do amor romântico em xeque, deixando ele meio sujo e na sarjeta para aprendermos a lidar melhor com as relações amorosas.

Disso, surgiu o livro Do Amor, viabilizado com financiamento coletivo em 2017, ultrapassando a meta inicial e chegando aos 111%, arrecadando mais de 20 mil reais e alcançando mais de 300 apoiadores.

Hoje a coluna está de casa nova, lá no Hypeness, e vou escrever aqui no Cotidiano Dela também! Então, quinzenalmente, aos domingos, estarei aqui com uma nova história de amores tortos e deliciosos. E tô bem feliz com o convite da Juju Manzato, uma pessoa muito querida. Mas vocês já devem saber disso. <3

Cheguem mais pertinho. Tem coisa boa pra acontecer. Aqui na assinatura tem os links das minhas redes sociais. Só se aproximar.

Um beijo!

Jader Pires

Jader Pires é escritor. Largou a publicidade, a experiência de sete anos em um banco e foi escrever. Começou a ler livros depois dos vinte e teve que correr atrás do tempo perdido. Já lançou três livros: o Ela Prefere as Uvas Verdes e o Do Amor, de contos, e agora, lança o seu primeiro romance, Deserto Negro, já disponível para compra. Siga-o no Instagram! @jaderpires.
Jader Pires

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